8.8.06

O poeta versus o militante - Neruda em Moscou

Poucas obras evidenciaram o conflito vivo entre o artista e o militante como “Elegia” de Pablo Neruda. Obra póstuma publicada em 1974, reúne poesias escritas pelo poeta durante sua estada em Moscou no auge do regime soviético. Os versos guardam um grande poder de descrição da realidade lírica e política da URSS. Acrescido a isso o poeta se alterna entre a certeza e a ansiedade acerca dos frutos do regime. Uma Moscou, real, atormenta a cabeça do poeta; outra, idealizada, habita seu coração.

Moscou cidade de grandes asas
Albatroz da estepe


Nos versos Neruda constrói a Moscou que vive em suas ambições de militante

Moscou através de seus padecimentos
Instaurou a limpeza da história


Apesar da predisposição ao regime, o poeta pondera quanto Stálin

Logo dentro de Stálin
Passaram a viver Deus e o demônio


Elegia é um retrato do poeta em confronto com o político. Neruda sofre as intempéries do estalinismo que sufocam sua alma lírica. Na verdade ele ama a URSS de Maiakovsky, de Eisenstein, onde o agir político deveria ser instrumento cabal da realização que possibilitaria o homem tratar-se quanto sua própria matéria prima. Uma revolução a serviço da felicidade.(o próprio Marx escreveu sua tese de doutorado em filosofia sobre Epicuro)Obviamente o mundo real é força preponderante na poesia. Elegia quer dizer “poesia triste”. E esse parece ser o saldo final de Neruda em relação ao que vinha se transformando aquilo que parecia ser a maior possibilidade de experiência humana de todos os tempos. O militante , ser racional, se depara com aquilo que o poeta não aceita.E isso deixa marcas no poeta. O poeta militante carrega em si hoje um misto de tristeza e esperança muitas vezes marcado por um passado de erros e derrotas a que toda uma geração foi marcada. Tal fato se expressa nos versos de hoje, daqueles que abandonaram o engajamento ou não. Como diria Marx, no 18 Brumário: “a tradição de todas gerações mortas oprimem como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Aos poetas-militantes resta por toda a vida alternar entre os versos de esperança e as maiores elegias. Até o dia de uma nova vitória.

6 comments:

Anelise said...

Como a gente faz pra escrever o barulhinho das palmas?

José Vinícius said...

meu caro Tiago,
sou fã de Neruda, conheci seu blog através do grande jornalista Augusto Rattes e gostaria de dizer que fiquei emocionado com sua análise. Eu estive nas lutas na decada de 60 e escrevi muita poesia naquela. Fico feliz em saber que ainda tem gente com fé...saudações

Babá said...

pelo menos alguém educado aqui... pergunta se pode colocar um link antes... diferente de mim... que seja!!!

neruda... inquietude interior alternando entre a expectativa de mudança e o sentimento de tristeza...
clap clap clap!!!

Laura, namorada do barba said...

muito bom. nota dez!!!!

Daniel Dhoorf, RJ said...

grande rattes, esse é o dilema, arte felicidade desilusão do capitalismo vida dificil e a vida continua... neruda foi geial e espero q sejamos pra construir o socialismo e muita poesia e arte em geral...

Anonymous said...

Aprendi muito