21.8.18

Xepa



 amiúde
armar  a feira livre
não  se resume em
tornar viável o sonho
da catação.

23.1.18

Preâmbulo

é permitido ao narrador decodificar
vidas que não o pertencem em poema?

a vida, parece-me, (depois de velho)
ser constituída de nativos da palavra.
e o poeta nem sempre devolve-os
o resultado dessa secreta incursão.

apropriar-se da estética da vida alheia
é o dilema dos narradores que de
alguma maneira abandonam seu choro
e arriscam esconder-se no choro alheio.

embora a vida não seja só a lágrima
(é menos sofrimento do que querem
os poetas confessionais, e é menos
dor para redenção do que querem
os poetas heróis de plantão),

a vida ainda é algum tipo de canto
que permite envolver-se pela métrica
ou ritmo das palavras. resta saber
se isso tudo é libertação ou prisão.


4.1.18

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{12}

Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die.(…)

T.S Eliot - Burt Norton - IV



a ponta dos teus dedos tornam o tocar mais simples em um gesto sublime e eterno. por isso te pedirei que coloque aquele disco. suas mãos claras, movimentando um disco de vinil em meio ao quarto escuro. os livros. das eternas e ternas estórias que só fazem sentido em tua voz.

perceba: amanhã é apenas uma palavra que repetimos enquanto medimos o tempo que gastaremos tendo prazer.

sendo assim, não marque no relógio, esqueça o calendário, a ampulheta, o telefone celular. “ouça” apenas o silencioso atrito dos corpos emudecidos nessa noite eterna.

{13}

(…)Dos lábios da alegria e corta o passo 
Ao gamo da aventura que fugia; 
O som desta paixão desmente o verbo(…)

Mario Faustino - (O som dessa paixão esgota a seiva)



feche a porta.

ainda sou capaz de perceber você andando na ponta dos pés. caminhe até o meu corpo inerte promovendo apenas a fé do silêncio.

ajeite a alma.

não pense que esquecerei dos planos de lermos um pro outro todos aqueles livros que guardamos na estante.

troco meu equipamento stereo e todos os meus discos por uma caixinha de música que contenha sua imagem..

25.10.15

Maré

ressaqueado, transatlântico de flores
banhando os pés de amantes. grita lá
a  mãe: menino, não vá longe no mar.
 barulho e concha, silício de memória
é ostra. aberta feito alimento, artesã.

da calçada, vendo apenas as velas, eis
que embarcado um sentimento nobre
flor. traz arrasto, a noite, sorve catuaba

sopa de caranguejo
oração, odoiá.


15.10.15

Estudo 1

lição moral: em nenhuma
circunstância ou ocasião
cabe dizer (por modos)
que não se deve aplicar
canonismos de ocasião.
diz o dicionário que
tal pratica consiste
em visar na crítica
apenas o pragmático
(ou aplauso)
sinônimo: canonismo de resultado
aprendi com os melhores
(craques da pena e bola)
que a arte não tolera
oportunismos covardes

23.9.15

Até mais

feito um rio de acordes
uma última história.

nem poesia, nem Coltrane

um último drink
um beijo gelado
um riso de morte.

23.3.14

Seminário de poesia brasileira

I
a fisiologia das palavras - insiste,
consiste em adotar floreios.
em certo lugar já não memora,
embora insista em truques

II
sem tempo para novos manuais
e na falta de velhos, inventa
retinto, um papel que não permite
estratégias de um poema esperto.

III
lacrimeja: esqueçam tudo que li!
fogueira, isso sim, é destino vil
para um graúdo trabalho acadêmico
“A com louvor” e o indico:

IV
para publicação. antes que tudo
que escreveu forre gaiolas.