5.7.10

Sentido

já fui de promover furacões,
dobrar esquinas a grito.

já gritei contra as cores da moda,
a fazer de assunto, o botequim
quando ainda havia esperança.

entendiado hoje, sagaz amanhã
procuro sentido nas coisas mais
menos.

no semáforo que pisca amarelo
à madrugada.

no cheiro enjoativo, mas presente
do desinfetante da faxineira.

no pó de giz que circunda as costas
de todos casacos.

no way of life, vintage, old school
and more, de meus estrangeirismos.

na habanera cubana proto-tango
proto samba. Pronto, sempre.

nas lágrimas do primeiro gole
da Coca Cola.

Na barba de Haroldo de Campos,
tão branca e bela.

Na expressão doentia de um Felipe Melo,
que pisa no pipoqueiro holandês.

No semba, zamba, que origina o samba,
e eu sempre vou.

quando provocava furacões
eu era menos observador,
e hoje o sentido, faz jus a palavra.

a febre
a fibra
o toque
o friso


nada disso mais
é literatura.

5 comments:

Marcello said...

poesia febril. senti-do.

Malavoglia said...

felipe melo e poesia conjugados. quem diria que ia funcionar tão bem?!

anderson pires da silva said...

grande thiago, puta poema,lirismo pós-beat. dizem que o mais perigoso não é o furacão, mas a calmaria. valeu!

Andre de Freitas Sobrinho said...

tá aí: descolado no ritmo, descolado do rito. pop sem perder elegância, bruto sem apelar pra pisão.
excelência de poema, ops, pois "nada disso mais/é literatura". pra lá da blague, poeminha bagdá.

Anonymous said...

Acho que vc tem ido e vindo. horas deveras Campos, hora deveras Chacal. Temo que fique perdido no meio do caminho. mas mesmo assim, ainda molho qdo te leio. besos en ti, poeta.