10.2.12

vestido branco - parte II (+18)

foto: el mensajero diario

ela entrou sem observar nada a sua volta. sem cerimônias. sentou-se na cama, arrancando os coturnos. ele sentou-se para desamarrar os cadarços e ela sem se importar que as unhas o arranhassem foi logo aranncando sua blusa, o deixando atrapalhado. sorriu para ele.

jogou seu corpo por cima do dele, o empurrando e o beijou. era um beijo bom. arrancou também a própria blusa e o sutiã, em um só movimento.

deitou-se rapidamente na cama para tirar a calça, e quando ele pensou em fazer o mesmo, ela o fez por ele. não permitia que ele conduzisse nada.

sentou-se em seu rosto já sem calcinha arqueando a coluna para trás e ordenou os movimentos de sua boca com as mãos entrelaçadas no seus fios de cabelo. puxava forte. virou-se, colocando os pés em seu rosto, delicadamente, e passou a chupá-lo. ele pensou em deitá-la para poder iniciar alguma reação, reconhecer seu corpo com mais precisão, mas antes disso ela já havia sacada uma camisinha do bolso e a colocou nele.

se posicionou de cócoras e permitiu a penetração. fácil. estava molhada o suficiente. levou  uma mão em seu peito com força e a outra segurava forte seu punho, permitindo-a conduzi-la pelo seu rosto. ele sentiu em seus dedos os lábios lindos que ele passou a noite inteira observando.

a franja caía sobre os olhos e ele não podia ver explicitamente suas reações. parecia estar bom. depois de alguns minutos nesse movimento, ela levantou-se.arrastou um velho chapeleiro do canto do quarto, com espelho de cristal para perto da cama. o trouxe até a borda e sentou-se em seu colo, em movimentos fortes e rápidos. a surpresa e total impossibilidade de conduzir a situação pareciam até o excitar. ele atingiu o orgasmo antes do que gostaria. ela respirou. olhou de soslaio. ergueu o corpo, inclinou o espelho para si e se masturbou até aparentemente gozar. sozinha.

caminhou até o lado da cama, deitou e acendeu um cigarro. ele adormeceu.

no dia seguinte, ele acordou assustado. mas estava mais relaxado. foi em direação a cozinha. havia café e medialunas quentes sobre a mesa. ela, trajava apenas a camisa e lia algo em seu laptop.
- fique a vontade para ler meus escritos. não precisa nem pedir...
sentou-se trazendo para si uma xícara e uma medialuna. ela apenas sorriu como quem não se importa.
- vocês da nueva generación de escritores brasileiros são assim, todos iguais?
- como assim?
- antenados, descolados. se importam com alguma coisa nessa vida?

sua reação normal seria apostar em um discurso que destruiria todas as contradições e mazelas da cultura argentina. sua decadência, seus dramas, seus pastiches. mas não teve forças. acendeu um cigarro, afastou a xícara e apenas disse em tom baixo.

- talvez sejamos apenas diferentes do que você se acostumou a ler.

antes que ele pudesse a convidar para almoçar, ela já estava se vestindo. deu um rápido beijo e sumiu pelas escadas do prédio.
passou o final de semana inteiro sem escrever e sem sair do apartamento. fumou exaustivamente, tomou litros de café, e só relaxou no domingo ao descobrir que no armário da cozinha haviam duas garrafas de Gato Negro Malbec, ainda embaladas com a sacola de uma lojinha de Mendoza. Provavelmente uma das últimas compras de sua avó em seus rotineiros passeios pelo interior.

na segunda-feira foi até a banca. o clima na cidade era letárgico, o calor unido a véspera do feriado de reyes magos.
- olá.
- hola, chico. passou bem o final de semana?
- na medida do possível.
- isso já é um começo.
- o que vai fazer amanhã?
- não sei, por que?
- que tal um passeio? um papo?

um passeio, um papo. imbecil, bucólico. por que?
- me parece interessante.
- sim, passa lá no apartamento, no início da tarde, pode ser?
- sí, chico.
sairam juntos no feriado. ruas vazias, um clima de cidade abandonada. andaram muito até a callao. de lá pegaram um ônibus até puerto madero. desceram e cruzaram a vera peñaloza, passarm pela calabria e depois de quase uma hora sentaram-se a beira da laguna de los coipas.

ele, resolvera falar mais. depois de tudo que acontecera, sentia-se mais a vontade. revelou suas angústias de escritor, seu desprezo pela argentina, sua vergonha de desconehcer a literatura da américa do sul, ousou ainda mais e descreveu toda impressão que tivera na noite em que transaram. esbaforido falava como se não houvesse amanhã. sentia-se inseguro, e contraditoriamente, conseguia falar disso, no lugar menos provável e com uma pessoa quase desconhecida. ela, por sua vez parecia estar disposta a pegar mais leve. tentou entender as razões, contemporizar os dilemas que ele vivia com a simples explicação de que o mundo mudou.

- guilhermo, as vezes pulamos de vagão. mas nunca de trem. você está nessa. pulou de vagão, mas continua no mesmo trem. só que prefere não acreditar. é assim. isso é você.
- e você não deve ter esses problemas, señora de la confianza.

ela gargalhou, ele já gostava disso.

- talvez tenha. mas no dia que o trem não me levar onde quero ir, pulo dele, não do vagão.

conversaram por mais tempo. de longe era possível ver uma mulher de vestido branco brincando com uma criança e um cachorro. a noite ameaçava cair e o sol já estava distante de refletir-se no rio de la plata. foram embora juntos de táxi. ela desceu na córdoba com pueyrredon. ele seguiu até o apartamento de palermo.
ficou de quarta até sexta trancado no apartamento. descera apenas para comprar um pacote com empanadas sortidas, uma caixa de alfajor abuela goye, gaseosas, algumas garrafas de quilmes e três ensaladas express. encheu a geladeira e ficou escrevendo. sentia-se mais animado, porém ainda incompleto em relação a vida e seu trabalho. pensou em ligar para a ex-namorada, havia transado com outra mulher, poderia estar mais forte para tal. arrefeceu. precisava de uma noite interessante. talvez em um boliche em san telmo, na companhia de gabriela.

foi até a banca da santa fé. mas não a encontrou. lá estava um senhor lendo o Olé e discutindo com outro se o Clarín mentia ou não. tentou interrompe-los, era dificil. algum deles entendeu quando ele falou o nome gabriela. e o máximo que ele conseguira entender é que ela não estava. irritado, retornou a seu apartamento. o sorridente porteiro o cumprimentou tentando algum tipo de conversa mas ele ignorou. trocou de roupa e quando mal havia escurecido foi ao palermo soho.

sentou-se por volta das nove da noite no la bruja tomou cerveja e comeu um bife de lomo. escreveu por algumas horas no smartphone. quando a casa ficou cheia foi para a pista e pediu um mojito com o dobro de rum. a música alta evidenciava que os hits do verão argentino mainstream eram da pior qualidade. pediu outro mojito e enquanto isso tentou conversar com uma turista aparentemente escandinávia.
praticamente gritava.

-  My name is Guilherme, I'm Brazilian writer!!
ela sorriu e disse algo que ele não pode ouvir. saiu em direção a pista e cochicou algo com as amigas, olhando para ele. ele, por sua vez tomou o mojito em dois goles. pediu uma vodka dupla, sem gelo. foi para a pista e ensaiou algum tipo bem estar naquela situação. já estava embriagado. foi em direção a turista e perguntou em inglês se ela não queria beijá-lo. ela sorriu e se beijaram na pista.

depois de alguns minutos foram até o lounge e se acomodaram em um sofá, trocaram amassos, ela, vermelha. ele afoito. quando respiraram, ela perguntou em um inglês sofrível.

- teach me...hummm... the tango.

que porra é essa de tango. será que essa idiota não sabe a diferença entre um escritor brasileiro e um dançarino de tango. será que essa mulher sabe onde fica o brasil?

fingiu que ia ao banheiro e não voltou. foi até o balcão, pediu outra vodka. antes que o servissem, pediu a garrafa, que aparentava ter pelo menos quatro doses. pagou a conta e foi embora. cruzou a plaza serrano visivelmente bebado e irritado. diante do prologo cervecero pediu a uma garçonete de cabelos pretos e óculos de grau de armação amarela se poderia usar o banheiro. entrou, trancou a porta, sentou-se no vaso e respirou fundo. mais uma vez fugindo. tonto. cansado. aflito.


pulando de vagão em vagão, sem coragem de descer do trem.

bebeu o resto da garrafa de vodka e saiu. sentiu-se mal. não sabia se era aflição ou porre. pensou em sentar-se no meio fio e quando tentou, caiu antes que conseguisse, batendo levemente a cabeça.

com a vista embaralhada não conseguiu identificar quem o ergueu. apenas observou olhares estupefatos a ele. antes que pudesse haver contato, foi embora, sinalizando para um táxi que havia acabado de deixar um casal por ali.

o dia seguinte foi de uma ressaca inominável. estava certo que deveria arrumar as malas e ir embora. conseguiu adiantar a passagem, ligou para o disque táxi de ezeiza e marcou um carro para levá-lo até o aeroporto. colocou o que havia sobrado de comida em um saco e jogou no lixo do prédio.

quando cruzou a portaria, o porteiro postou-se na sua frente.

- Sr. Guilherme, lo siento, pero hay días en que estoy tratando de enviar este correo a usted.

era um pequeno envelope timbrado do malba. souvenir comum a quem visitava o museu de arte moderna de buenos aires. uma folha pautada por dentro. com um bilhete rápido, em uma letra bonita.
hei chico,
fui recarregar energias na cabana da família em Punta Tombo.
caso tenha interesse de conversar mais, abaixo tem um telefone.
não devo retornar a cidade nos próximos dias.
tem horas que pular do trem, pode gerar feridas.

besos.



G.


o que significava aquilo? talvez nada. poucos dias em buenos aires pareciam ter gerado porres, uma transa louca, um galo na cabeça, um ego massacrado. dúvidas. e um livro imbecil ainda inacabado. na cabeça a frase da tatuagem de gabriela.


La verdad es esta: Yo doy mi todo.

sim. uma única verdade suficiente para torná-lo pequeno. ele, comedido. angustiado. reticente. vacilante. sem verdades a seguir.apenas escrever romances com garantias de boas críticas pautas em releases bem escritos. nada a fazer. seguir a ezeiza. pular mais uma vez de um vagão para o outro. desta vez, o mais seguro.

amassou o bilhete e o jogou no chão ao sair do prédio. quase acertou uma garota, de cabelos longos, um rabo de cavalo de lado, rosto corado e com um curto vestido branco.

nunca leria cortázar. e decididamente nunca mais voltaria a buenos aires.

5 comments:

dida said...

tá demais, hein, querido!? =)

marilda said...

é como se estivessemos lá, parabéns

Anonymous said...

sexy sexy

Kadu Mauad said...

quem pontua um ponto aumenta um conto. que venham outros!

bjs
kd

the Audiovisual God said...

Brasil e Argentina, de longe a melhor história de amor do planisfério. Muy bueno pibe. :)