31.7.12
29.7.12
ossada
titubeia ferino, como um bicho
come, lambe os beiços, ossada
simples, ou indivisível – olha
o que sobra, louça, terçã festa
como possessão, faz santuário
a bico de pena, beberica peito
na ponta dos dedos, caminhada
faz da sola calvário, alma rasgada
idílio de nada serve, meu servo
quando sono, dorme no
azougue
pretere, antes que seja morte
afere o pulso antes que vá em vida
![]() |
| Bansky |
25.7.12
Parceria com MC Marechal no Projeto Livrar
Nesta quinta-feira, dia 26 em Brasília tem Batalha do Conhecimento, evento promovido pelo MC Marechal. Dentro do evento ocorre o Projeto Livrar, em parceria com a escritora Janaína Michalski. O projeto consiste na distribuição de livros de autores independentes nos shows do Marechal.
Tenho a honra de participar com 50 exemplares d'A lápide nessa quinta.
Saiba mais sobre o projeto no site Central do Hip-Hop
.
28.6.12
gênese
E foi no quinto dia útil – dia de pagamento que não saiu –
que Deus, sem poder sair de casa fez o mundo. Caçoou das alturas que desenham o Vale do
Paraibuna e abriu trilhas. Fez das encostas, morada. Das vielas, ponto de
encontro.
Deus fez o homem sua imagem e semelhança: chinelos, bermuda,
camiseta, boné, a pele preta - menos preta que a cor dos cabelos. E quis Deus
que o homem não vivesse sozinho, padecendo da solidão de ouvir seu rádio e
louvar apenas orixás e arquétipos masculinos. Sendo assim, ele permitiu que a
polícia militar, na madrugada fria do Buraco do Olavo, retirasse através de
bicudas na costela do homem, uma mulher.
Para que esse homem se alimentasse e provesse sua prole,
Deus permitiu a ele que vendesse CDs e DVDs piratas na avenida Getúlio Vargas e
em suas ruas transversais. O mesmo Deus, onisciente, decidiu que faria vista
grossa caso sua cria fosse dada a outras ilegalidades menos inocentes.
Desde então, o homem passou a viver sob a égide do “dai ao
fiscal de posturas o que é do fiscal de posturas”. E o mandamento, epístola,
jargão, caô, parábola, passou a valer para toda autoridade civil ou militar.
É no trespassado da ponte, que liga ao centro a zona leste,
numa travessa discreta, dentro de um barraco de dois cômodos que ele guarda
caixas de meias, sombrinhas, guarda-chuvas, bolsas femininas, bijuterias e uma
gama de produtos fruto da desatenção alfandegária ou do trabalho barato dos
chineses.
Deus colocou no paraíso de esgoto ao céu aberto uma árvore
de frutas podres. Foi o que deu, mediante a contenção de recursos. E o diabo
que apenas queria dormir todos os dias foi delatado como responsável pelo
produto vencido e tornou-se cúmplice dos pretos do paraíso falido. Foi tocar
piano na delegacia de Santa Terezinha.
Desde então rádios e jornais noticiaram a decadência do paraíso. Deus lavou as mãos, o Diabo morreu na última rebelião do CERESP.
E as crias, nascidas da cópula de dois irmãos, habitaram o
resto do Vale do Paraibuna, lavaram seus corpos e se tornaram brancos, lavaram
suas mentes e se tornaram pessoas de bem.
E nenhuma delas sabe, ou ousa saber, que nas madrugadas frias da cidade, das
vielas, das encostas, continuam arrancando de homens e mulheres outros homens e
mulheres com bicudas nas costelas, tapas na cara e muitos tiros.
Foi Deus que
criou o silêncio do ardor da pele que apanha e a escuridão dos olhos cerrados.
25.6.12
14.6.12
dos quatro movimentos
movimento 1
crava forte o dente
no batente da porta,
rude estapeia a fé
entorta, verga, força.
chama de socar,
quarar saliva no pé.
douto, assombra
a trilha do calcanhar.
movimento 2
nos dedos, fios,
cabelo um punhado
lacerado, chora
cora o colo, rebenta
nega que aguenta,
faz de bebê, dá água
da palavra, um berro
belo lírico arregaço
movimento 3
esperneia, teme gozo
volumoso, mete verga
enxerga, ou não, fim.
sim é o que diz, senão.
deita com a santa,
assanha faz de puta
labuta é foda, fela,
cadela, cachorro, uivo.
movimento 4
sabe que depois existe
resiste, tampouco dó
do pó, a tatuagem
da sacanagem, missão
no tranco, explode
escorre amor, frouxa
nas coxas, lisas, brancas
ganha um rio de leite
choram agora, dois
depois se acorrentam
sutiã de cruel algema
aguenta:
- hora de tudo de novo!
crava forte o dente
no batente da porta,
rude estapeia a fé
entorta, verga, força.
chama de socar,
quarar saliva no pé.
douto, assombra
a trilha do calcanhar.
movimento 2
nos dedos, fios,
cabelo um punhado
lacerado, chora
cora o colo, rebenta
nega que aguenta,
faz de bebê, dá água
da palavra, um berro
belo lírico arregaço
movimento 3
esperneia, teme gozo
volumoso, mete verga
enxerga, ou não, fim.
sim é o que diz, senão.
deita com a santa,
assanha faz de puta
labuta é foda, fela,
cadela, cachorro, uivo.
movimento 4
sabe que depois existe
resiste, tampouco dó
do pó, a tatuagem
da sacanagem, missão
no tranco, explode
escorre amor, frouxa
nas coxas, lisas, brancas
ganha um rio de leite
choram agora, dois
depois se acorrentam
sutiã de cruel algema
aguenta:
- hora de tudo de novo!
11.6.12
Lição
foi assim. aprendemos juntos a extrair corações vivos, pulsantes, de peitos quentes e acordados.
eu lhe oferecia facas e ferro quente para cauterizar. você sempre escolhia colheres.
nunca nos importamos com os restos. o sangue.
um dia, escrevi em teu peito nu, com o sangue, minhas iniciais. você se comoveu e deixou cair as pálpebras sobre os olhos tão lindos que me observavam. dormiu. e para não demolir a ideia de que eu sou intransigente, esperei teu mais profundo sono para colocar sua música predileta no toca-discos.
havia silêncio. apenas um leve assobio da janela entreaberta avisava que havia algo de vida do lado de fora.
aprendi que as doçuras só fazem sentido se forem usadas como ataduras para as maldades mais íntimas. que se lágrimas não nascem da felicidade das pequenas coisas, podem cair através das mais delicadas brutalidades.
brincar de dialética.
rabisquei versos no ritmo de tua respiração inquieta.
feito, circunscrito a calma
alma, um grito que foge
o peito.
desisti de cruzar rimas. fui cruzar pernas na cama quente habitada por ti. finita. mas quente.
25.5.12
Tupi F.C, 100 anos: "a chama viva da esperança"
Neste sábado, dia 26 de maio de 2012, o Tupi F.C completa 100 anos.
Quando eu era apenas um moleque, ele estava lá. Imponente. Uma entidade, uma instituição.
As primeiras imagens do Tupi F.C em minha vida: uma velha camisa de meu avô, fotos de quando meu pai jogava no clube e o imponente palco art-decó que é o Sales de Oliveira.
Atravessávamos a ponte para ganhar o mundo, percorrer ruas, aprontar. Coisas de criança. E em boa parte das vezes íamos ao Sales assistir os atletas treinarem. Éramos da várzea, peladeiros, adeptos do futebol de rua, e nossos olhos se enchiam de sonho ao pensar que um dia poderíamos estar ali, vestindo o manto alvinegro.
E desde então o Tupi F.C constitui-se em paixão perene, forte, fanatismo, devoção.
O time do povo de Juiz de Fora, da massa. Dos suburbanos, das mulheres, das crianças, das multidões que se moviam em direção ao Sales e hoje ao Mário Helênio. A torcida afoita, inquieta, esperançosa, que não arreda o pé nem mesmo quando o time enfrentou as piores provas e espiações no limbo do cruel mundo futebolístico.
Quantos clubes marcaram efêmera presença no futebol mineiro e brasileiro? Muitos. Alguns deles com investimentos soberbos, apoios grandiosos. Mas desapareceram. Tornaram-se mera lembrança. Quantos clubes dotados de volumosos recursos privados e estatais são apenas anônimos coadjuvantes do futebol brasileiro? Inúmeros.
O Tupi F.C não. Presente, forte, guerreiro, místico, o Carijó trilhou 100 anos de história subvertendo qualquer lógica que impusesse um destino de fracasso ou de desaparecimento.
Dirão os céticos, desprovidos de amor no coração, que o Tupi fez pouco. Eu retruco, com firme convicção: nenhum outro clube faria tanto, com tantas trincheiras, obstáculos, dificuldades e pedras a serem quebradas. Assim é a "repentina explosão dos Carijós"!
Foram 6 campeonatos mineiros do interior, 23 campeonatos da cidade de Juiz de Fora, 17 ligas, 1 emocionante Taça Minas, 1 campeonato mineiro módulo II e o apoteótico Campeonato Brasileiro da Série D, no ano passado.
Só o Tupi F.C, especialista em calar as massas adversárias poderia propiciar ao mundo do futebol o que vimos no Arruda ano passado. Só o Tupi calou o Mineirão contra todos os times de Belo Horizonte. Só o Tupi, atrevido, convicto, forte, para brecar a seleção de Pelé e Garrincha.
Só o Tupi F.C para estampar um amor que não se explica. Se traduz em força, paixão, tradição. É parte constituinte da alma de uma cidade.
100 anos de meu Galo Carijó. Eu poderia jogar fora todos argumentos poéticos, futebolísticos, identitários já trazidos nesse texto. Por que paixão não se explica.
É na arquibancada de cimento, sob sol ou chuva, frio, calor, seja lá qual for condição climática, que o coração desperta esse sentido.
E quando o time sai do vestiário para o campo, para mais um derby, nada mais existe.
Só o Tupi, minha paixão, meu amor.
23.5.12
marcas
ela me mostra as mãos
eu peço os pés, sei que
hoje rubros estão.
ela se pinta, como
se já não
fosse vermelho,
o retrato desse
incêndio.
: sua timidez
e repara, graceja
e me conta:
- são pequenos pés,
e mãos.
e eu só meço encanto,
o quanto cabe e peço:
- que dure o canto.
que a pele clara
seja depósito de
marcas.
feito o cabelo trançado,
emaranhado de dedos.
eu peço os pés, sei que
hoje rubros estão.
ela se pinta, como
se já não
fosse vermelho,
o retrato desse
incêndio.
: sua timidez
e repara, graceja
e me conta:
- são pequenos pés,
e mãos.
e eu só meço encanto,
o quanto cabe e peço:
- que dure o canto.
que a pele clara
seja depósito de
marcas.
feito o cabelo trançado,
emaranhado de dedos.
15.5.12
desejo imperativo
"Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção."Ezra Pound (Cino - tradução: Mário Faustino)
teu bico, tuas ranhuras, teu colo
a jazz band.
de achar graça em tua camisa
preta, nada solene.
perder o sono em teu salto
alto, acordar embaixo.
§ costurar com salto agulha
exercício de unir corpo
fazer tornado
caminhar, eu, por suas
pernas torneadas.
deixar que o tempo faça marcar
na marca de dente
em teu calcanhar.
tuas pernas revoltas que movem
por sobre o corpo, meu copo
teu cigarro.
§ cinzas no lençol.
as marcas do chão nos joelhos
frio assoalho, contra o quente
desejo.
é tudo um grande degredo,
místico segredo que
se quer libertar.
cada pequeno e doce crime
anotado numa lista,
desejo novo, amor antigo.
meu nome, evocativo
tua ordem, desejo
: - imperativo!
27.4.12
céu vermelho
eu disse a ela que olhasse a vermelha marca do céu que saía da fissura das nuvens, o elã, intenso, partido. mas ela não olhava. insistiu na velha história que seu vestido vermelho não o era.
- é apenas o reflexo do céu, meu bem.
- e por que não olha o céu?
- por que gosto dele assim, vivo nos teus olhos.
o silêncio. uma arte, da tranquila cumplicidade estéril. o mar, em som estereo. quadrifônico, como a qualidade oferecida e nunca obtida nos discos que comprava.
e fez-se uma maré estranha.
havia o cheiro bom. havia a restinga. o farol apagado. restos de vida na areia. e de novo havia silêncio.
só interrompido quando ela ergueu o braço. a sonoridade do bater e rebater das pulseiras. umas nas outras, como se fossemos nós. estilhaçar ouro, prata, cobre.
cada grama era reluzente poeira. como se ela fosse a magia. e fazia isso sorrindo, apertando os olhos. a boca entreaberta.
- eu já terminei.
sua voz calava o oceano atlântico.
e eu, permiti a seu corpo apenas a tornozeleira de palha.
20.4.12
espelho
diante o aço que brilha, um estranho:
- olhos de estanho, um mormaço na alma.
de dentro, impossível não ser cirúrgica
a retirada de estilhaços incandescentes.
entende: é um istmo que serve de calço.
enlaço, é frívolo o recurso do dístico.
não anota em suas anáguas as memórias.
pela hora teme - ritmo das mágoas.
se a pele revolveu a dentro, por anos
supomos aceitar a carne-fora exposta.
vermes e veias, tingidos tão rubros:
um urro ao pousar de uma borboleta.
como contraste de pele alva ferida,
pele branca de urso polar em sangue.
devoramos todos, com claros dentes,
os mesmos que desacatamos sorrisos.
diante o aço que brilha, um estranho:
em caso de emergência, não titubeie.
quebre o impostor que agora habita
inconvenientemente o espelho.
- olhos de estanho, um mormaço na alma.
de dentro, impossível não ser cirúrgica
a retirada de estilhaços incandescentes.
entende: é um istmo que serve de calço.
enlaço, é frívolo o recurso do dístico.
não anota em suas anáguas as memórias.
pela hora teme - ritmo das mágoas.
se a pele revolveu a dentro, por anos
supomos aceitar a carne-fora exposta.
vermes e veias, tingidos tão rubros:
um urro ao pousar de uma borboleta.
como contraste de pele alva ferida,
pele branca de urso polar em sangue.
devoramos todos, com claros dentes,
os mesmos que desacatamos sorrisos.
mas
diante o aço que brilha, um estranho:
em caso de emergência, não titubeie.
quebre o impostor que agora habita
inconvenientemente o espelho.
16.4.12
Dodge Dart
- Atenção patrulha 0632, aqui é a central, Rodrigues no rádio. Quem me copia?
- Palhares na escuta, central. Prossiga.
- Descendo a avenida principal com faróis baixos e amortecedores rebaixados um veículo Dodge Dart sem placa e de pintura preta. Dentro do veículo encontram-se quatro individuos suspeitos, todos sem camisa, cabeça raspada e ouvindo uma música assustadora. Olha, Palhares eu tenho filho adolescente e posso dizer, tem jeito de ser um bando de emaconhados adoradores do diabo. Copiou?
- Positivo, central. Já estamos alterando a nossa rota para cruzar com esses arruaceiros. Pode confirmar a diligência. Copiou?
- Positivo, bravo soldado. Servir e proteger. Desligo.
Sempre que voltavamos da diversão noturna desciamos a avenida principal daquela cidade de merda ao som de Korzus. Isso aconteceu antes que Lorraine morresse; antes que meu Dodge Dart virasse sucata na mão de policiais corruptos; antes mesmo que eu morresse.
Diversão noturna: o eufemismo que usavamos para explicar a surra que davamos nos playboys do bairro da Casa Alta ao menos duas vezes por semana. No início eles nos encaravam. Depois de um ano quando o Dodge Dart preto apontava na esquina era divertido ver a disputa das bonequinhas para ver quem conseguia correr primeiro. Alguns se mijavam.
O Dodge Dart eu comprei com meu fundo de garantia, quando fui demitido da gráfica após esbofetear o chefe da seção que se negou a me deixar assinar meu ponto corretamente. A justa causa virou acordo. Eu ainda tinha muita porrada guardada para meus superiores.
Infelizmente o dinheiro nunca permitiu que eu pudesse pintar meu carro em um lanterneiro. Mas com a grana que sobrou comprei uma bomba de flit e um rolo de tinta, além dos galões de tinta especiais. Passamos muitos domingos pintando o velho carro. Camada a camada de tinta, cirurgicamente depositada sobre o manto de durepox que consertava as imperfeições da lataria.
Na feira de domingo comprei por uma bagatela um toca-fitas japonês. Roubado, claro.
Meu nome não interessa. As pessoas me conheceram pelo apelido: Carca. Desde criança me chamam assim. E nas noites de litigio profundo da moral, eu, Milha, Porco e Vica habitavamos o Dodge Dart com nossos sonhos que rapidamente se traduziam em pesadelos alheios.
Eu morri depois de Lorraine. E Lorraine nunca andou no Dodge Dart. Eu acho que a amei desde a época que ela ainda se chamava João Carlos e éramos crianças. Mas nunca poderia suportar viver assim. Eu, surrando moleques folgados pela noite. Ela, vendendo o corpo nas ruas paralelas às que eu fazia escorrer sangue.
Eu matei Lorraine. Por vergonha de amá-la. E isso ninguém nunca soube e nem saberá, só agora que eu confesso em forma de uma prosa imbecil o meu crime. E até hoje suspeito que foi por vingança que aquele homem invadiu minha casa e atirou em mim no banho com uma 12. Minha mãe até hoje lamenta que por causa disso meu queixo alinhou-se a nuca. E velório não tivemos.
Eu pensava nela e no meu inexorável destino de ser vítima de mim mesmo enquanto dirigia e trocava fitas no som auto-reverse. Nesse dia, Milha estava pensativo e fazia perguntas estúpidas. Eu pedi que ele se calasse e permitisse que nós vivenciassemos o tédio da madrugada.
Foi num dia 21 de junho, frio e triste, que uma patrulha da Polícia MIlitar mandou que encostassemos. Nunca cederiamos. Esse foi o maior e último delito do Dodge Dart. E a última vez que eu surrei um agente do estado antes de morrer com o rosto estourado por um tiro de escopeta.
- Palhares, por favor, dê informações da situação da diligência, copiou?
- ...
- Palhares, aqui é a central. Correu tudo bem? Precisamos enviar reforços?
- Rodrigues...
- Por favor, soldado, informe a situação exata aí nesse momento.
- Um Dodge dart...
- O que?
- Esses...vagabundos...nem tomaram conhecimento de nossas armas.
- Meu Deus, Palhares, o que aconteceu?
- Mande uma ambulancia pra mim. De preferência com um bom ortopedista. E pode trazer o carro funerário. O soldado Vasconcelos tombou. Aliás, partiu. Ao meio.
- Santo Deus...
- A música, Rodrigues... a música é terrível. Deve ser realmente coisa do diabo. E se o diabo existe...ele deve ter um Dodge Dart igual a esse.
7.4.12
Corcel II
- Uma boa noite aos ouvintes da sua, da nossa Rádio Cidade Bela. Agora no comando da noite, eu, Sérgio Lourenço, a sua companhia das madrugadas em ondas curtas. São exatamente três e trinta de uma madrugada bela e fresca. É possível que o senhor e a senhora, encostados nessa insônia sintam o olor da Dama da Noite que inunda os jardins de nossa pacata cidade. E para você que nos acompanha do trabalho, de casa, da rua, com o coração feliz ou angustiado, nada melhor que uma bela canção para relaxar. Por favor, Amadeu, meu filho, toca aquela preciosidade que você separou para nós.
Sempre que se aproximava do posto abaixava o rádio. Nunca sabia se o cheiro de gasolina vinha de fora ou de dentro do carro. Diminuiu a velocidade e olhou para o banco de trás. O estofado rasgado, um galão vazio e uma mangueira muito utilizada para roubar gasolina de tanques alheios.
Encostou o Corcel II próximo a bomba de gasolina comum. Desligou o motor e saiu para fumar um Charm longo enquanto o Gordo colocava os mesmos quinze reais de gasolina de sempre.
- Tudo em ordem hoje, Charles?
- Tudo, como sempre, Gordo.
Abriu um botão da camisa de tergal vermelha, ajeitou no peito uma medalha de São Cosme e São Damião. Encostou-se no caminhão tanque e retirou do fundo do bolso um isqueiro Bic que combinava com sua camisa.
Sentia prazer em fumar no posto de gasolina.
De lá o Gordo gritou:
- Nem vou perguntar se quer que cheque o óleo ou lave o para-brisa.
- Isso gordo, fica calado.
Entregou o dinheiro levemente amassado, sorriu de forma cinica e arrancou com o velho Corcel II em direção a madrugada escura.
Andou vinte quilometros sentindo vento bater no rosto. O único barulho que competia com o motor era o da lataria velha rangendo. A cada curva sentia os amortecedores implorarem por uma troca.
- E olha meu amigo ouvinte, minha amiga ouvinte, quem nos escreveu essa quarta-feira foi a Dona Maria Aparecida dos Santos lá do Canto da Obra. Ela manda um abraço para toda nossa equipe e pede que toquemos uma linda canção que a faz lembrar de sua juventude. Vocês vão reconhecer essa música, tenho certeza que já amaram muito ao som dela. E para você, Dona Maria, o abraço carinhoso do Sérgio Lourenço de toda equipe da Rádio Cidade Bela, a sua companhia na madrugada das ondas curtas.
Antes de entrar a esquerda, numa estrada de terra, abaixou novamente o rádio e ligou o farol alto. Uma das poucas coisas que ainda funcionavam no velho Corcel II.
Avistou a pequena casa em meio a escuridão. Amarela, com duas janelas ladeando uma varandinha singela que dava espaço para a porta da frente. Um suporte de plantas com uma samambaia, no chão um vaso de "comigo-ninguém-pode" dividindo espaço com espadas de São Jorge. Na porta estava colado um pequeno folheto da novena de São Judas tadeu.
Deixou o carro aberto. Antes de se dirigir a casa abriu o porta-malas e de lá retirou uma pesada bolsa de couro velha e surrada. Fechou. Observou que a noite era especialmente bela. Uma lua crescente decorava o céu e iluminava o silêncio que mal era pertubado pelos carros que passavam longe na estrada. Resolveu que havia ainda tempo para mais um cigarro. Pensou que um dia deveria se desfazer do velho Corcel II, que nada duraria para sempre, nem mesmo seu carro, companheiro de muitas madrugadas.
Se dirigiu a porta. estava aberta. A casa estava escura. Apenas um fio de luz parecia vir da área de serviço. Era possível ouvir um rádio baixinho. Ela estava ao lado do rádio, com seu vestido de flor. Lenço na cabeça, tradiocionalmente utilizado em noites que cuidava do cabelo usando seus velhos rolinhos. Parecia dormir ou orar.
Ele parou a dois metros de distancia. Foi quando ela sentiu sua presença.
- Você?
Ele permaneceu em silêncio. Deixou transparecer um sorriso, cínico como qualquer um que ele distribuia.
Abriu a bolsa de couro em meio a casa mal iluminada. Era possível para ela apenas ver que ele havia retirado algo e erguera o braço em meio a penumbra. Deu dois passos a frente.
A voz dela exalava um desespero cansado.
- Não, por favor, o alicate de novo não, tem mais de uma semana que você vem aqui com esse alicate, eu não aguento mais!
O Corcel II nunca vira sangue no piso de ardósia.
- E então meus amigos e amigas, nada como o amor que toma conta dos corações dessa terra. Eu, Sérgio Lourenço tua voz amiga das madrugadas vou me despedindo mas claro, sempre com o compromisso de voltar, por que as madrugadas são dos amores mais sinceros e nobres. Sinta bem meu amigo e minha amiga, é o olor de Dama da Noite que percorre os cantos de nossa pacata e familiar cidade. Vou embora deixando uma canção belíssima e claro desejando que todos vocês fiquem na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E lembrem-se, esse programa é mais um oferecimento do Posto Caminho da Felicidade, a sua parada ideal nas noites de viagem. Um abraço!
2.4.12
desagradável poema
Ao Anderson Pires da Silva
“O poeta contemporâneo tem de ser perigoso como Dante foi perigoso; uma força respeitável frente às demais forças sociais” Mario Faustino
não sou um poeta pós-utópico,
nem ao menos idólatra vil
da materialidade da linguagem,
de pesados livros de estética.
a poesia esotérica ficou
nos meus idos anos de espiação,
quando antes, havia sido surrado
pela concretude das palavras.
[alguns diriam que esvaziei a alma cedo]
nunca andei à margem que não fosse
a da linha férrea do subúrbio,
onde a poesia proibida, nascia
em bocas mudas e olhos fechados.
[vem daí a libertação da alma pelo samba]
§ onde parece que nada sobrou, restou um caminho.
uma trilha de sombras e riscos,
onde a esfera da experiência
conjuga-se no dar vida a vida,
deixá-la ser capturada pelo
imenso abismo da linguagem.
dentro dessa rapinagem, afoita
estranha, dolorosa e envaidecida
tudo será enorme e arriscado.
um jogo sem volta onde esse ser
: poesia! tem vida e vontade própria
resta - e não é pouco - abrandar
o sufoco, e centrar-se no lodo
escorregadio mas permissivo,
de ser perigo, surpresa, susto,
inquietação, rude assombro.30.3.12
octaedro
são páginas dissonantes, meu amor.
segredos de linguagem, fúria.
é que as vezes só podemos portar
um lápis e uma folha solta.
&
tende a ser viril, mágico, alcunha
de nós mesmos. duas pirâmides
amando em geometria espacial.
quando de um beijo na Calle Defensa,
e ao longe o senhor de óculos dizia
: é apenas uma canção de Pizzolla.
mas lembre-se, nessa casa nenhuma
mas nenhuma parede é paralela, e sim,
ainda sim me permito amar de canto.
por que há sempre duas palavras mágicas
- eu quero!
acionadas pelo barulho da tampa da garrafa
que desprende o gás, ecoando pela cozinha.
existe a arte de massagear dois pés,
com apenas uma mão, enquanto canções
desfilam impunes pelo toca-discos;
amor de panturrilhas.
faria um tango sobre amores que nascem
em ônibus em movimentos,
uma balada sobre o sofá-cama que
se abriu tantas vezes em tardes livres.
um soneto sobre o corpo que recobre
e faz um mundo.
mas seriam só palavras, e a linguagem
às vezes é apenas um ser vivo de
autonomia irritante que desconhece
as coisas do amor.
segredos de linguagem, fúria.
é que as vezes só podemos portar
um lápis e uma folha solta.
&
tende a ser viril, mágico, alcunha
de nós mesmos. duas pirâmides
amando em geometria espacial.
quando de um beijo na Calle Defensa,
e ao longe o senhor de óculos dizia
: é apenas uma canção de Pizzolla.
mas lembre-se, nessa casa nenhuma
mas nenhuma parede é paralela, e sim,
ainda sim me permito amar de canto.
por que há sempre duas palavras mágicas
- eu quero!
acionadas pelo barulho da tampa da garrafa
que desprende o gás, ecoando pela cozinha.
existe a arte de massagear dois pés,
com apenas uma mão, enquanto canções
desfilam impunes pelo toca-discos;
amor de panturrilhas.
faria um tango sobre amores que nascem
em ônibus em movimentos,
uma balada sobre o sofá-cama que
se abriu tantas vezes em tardes livres.
um soneto sobre o corpo que recobre
e faz um mundo.
mas seriam só palavras, e a linguagem
às vezes é apenas um ser vivo de
autonomia irritante que desconhece
as coisas do amor.
25.3.12
medicamento
corpo, uma coordenada
de fios tênues, ossos, pó.
bula: não requisita pré-
indicações, ou contra-
funções.
permeia andar.
corpo, mavioso ainda
que por um segundo
: primeiro!
69 % do corpo é anágua
20% é água,
e 1% é lavra.
de fios tênues, ossos, pó.
bula: não requisita pré-
indicações, ou contra-
funções.
permeia andar.
corpo, mavioso ainda
que por um segundo
: primeiro!
69 % do corpo é anágua
20% é água,
e 1% é lavra.
corpo malato
22.3.12
doce e cortante
- el arte de viajar -
do encontro, mesa de bar.
corpos juntos, dedilhando coxas.
- justo a tiempo -
teu marlboro, e a rubra brasa
que ilumina o quarto, breu.
- la canción del silencio -
quebrada apenas pelos
doces pés, tocando chão.
- las picaduras de placer -
o entendimento de que:
tempo escasso, marcas de amor.
- la ambivalencia del deseo -
dois tempos: do desejo incontido
ao aninhar sem amanhã.
- las razones para el encanto -
a tatuagem, o salto que adorna.
o sorriso de olhos apertados.
19.3.12
fogueira
não se permite mais , nem menos
escrever em tom confessional.
- ensejo, puro.
a vida toda linguagem de Faustino
nunca poderia dar sentido, em vão.
- tanto sentido.
a cortina das metáforas exploradas
constituem um ser vivo, automático.
- dicionário de expectativas.
o conjunto dos conselhos dados,
forma uma pilha de papéis, lidos.
- gramática do viver.
seguir rota de um caminho, perdeu-se.
habitua-se trocar mapas por bússola.
- cartografia do medo.
desencontro é detonador de bombas;
não há mais suicidas a se alistar.
- bandeira branca manchada de sangue
a expectativa de poeta é caneta falha,
esferográfica que rasga carne, inteira.
- decantar é a palavra infeliz do dia.
para quem desfere remotas palavras,
silêncio é o desmando da norma sã.
- ansiedade em estenografar.
em dias de frio e solidão sincera,
nunca ouça conselhos de poeta.
- fazer fogueira com pilhas de poemas.
escrever em tom confessional.
- ensejo, puro.
a vida toda linguagem de Faustino
nunca poderia dar sentido, em vão.
- tanto sentido.
a cortina das metáforas exploradas
constituem um ser vivo, automático.
- dicionário de expectativas.
o conjunto dos conselhos dados,
forma uma pilha de papéis, lidos.
- gramática do viver.
seguir rota de um caminho, perdeu-se.
habitua-se trocar mapas por bússola.
- cartografia do medo.
desencontro é detonador de bombas;
não há mais suicidas a se alistar.
- bandeira branca manchada de sangue
a expectativa de poeta é caneta falha,
esferográfica que rasga carne, inteira.
- decantar é a palavra infeliz do dia.
para quem desfere remotas palavras,
silêncio é o desmando da norma sã.
- ansiedade em estenografar.
em dias de frio e solidão sincera,
nunca ouça conselhos de poeta.
- fazer fogueira com pilhas de poemas.
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