27.4.12

céu vermelho

eu disse a ela que olhasse a vermelha marca do céu que saía da fissura das nuvens, o elã, intenso, partido. mas ela não olhava. insistiu na velha história que seu vestido vermelho não o era.

- é apenas o reflexo do céu, meu bem.
- e por que não olha o céu?
- por que gosto dele assim, vivo nos teus olhos.

o silêncio. uma arte, da tranquila cumplicidade estéril. o mar, em som estereo. quadrifônico, como a qualidade oferecida e nunca obtida nos discos que comprava. 

e fez-se uma maré estranha.

havia o cheiro bom. havia a restinga. o farol apagado. restos de vida na areia. e de novo havia silêncio.

só interrompido quando ela ergueu o braço. a sonoridade do bater e rebater das pulseiras. umas nas outras, como se fossemos nós. estilhaçar ouro, prata, cobre.

cada grama era reluzente poeira. como se ela fosse a magia. e fazia isso sorrindo, apertando os olhos. a boca entreaberta.

- eu já terminei.

sua voz calava o oceano atlântico.

e eu, permiti a seu corpo apenas a tornozeleira de palha.


20.4.12

espelho

diante o aço que brilha, um estranho:
- olhos de estanho, um mormaço na alma.

de dentro, impossível não ser cirúrgica
a retirada de estilhaços incandescentes.

entende: é um istmo que serve de calço.
enlaço, é frívolo o recurso do dístico.

não anota em suas anáguas as memórias.
pela hora teme - ritmo das mágoas.

se a pele revolveu a dentro, por anos
supomos aceitar a carne-fora exposta.

vermes e veias, tingidos tão rubros:
um urro ao pousar de  uma borboleta.

como contraste de pele alva ferida,
pele branca de urso polar em sangue.

devoramos todos, com claros dentes,
os mesmos que desacatamos sorrisos.

mas

diante o aço que brilha, um estranho:
em caso de emergência, não titubeie.

quebre o impostor que agora habita 
inconvenientemente o espelho.






16.4.12

Dodge Dart

- Atenção patrulha 0632, aqui é a central, Rodrigues no rádio. Quem me copia?
- Palhares na escuta, central. Prossiga.
- Descendo a avenida principal com faróis baixos e amortecedores rebaixados um veículo Dodge Dart sem placa e de pintura preta. Dentro do veículo encontram-se quatro individuos suspeitos, todos sem camisa, cabeça raspada e ouvindo uma música assustadora. Olha, Palhares eu tenho filho adolescente e posso dizer, tem jeito de ser um bando de emaconhados adoradores do diabo. Copiou?
- Positivo, central. Já estamos alterando a nossa rota para cruzar com esses arruaceiros. Pode confirmar a diligência. Copiou?
- Positivo, bravo soldado. Servir e proteger. Desligo.


Sempre que voltavamos da diversão noturna desciamos a avenida principal daquela cidade de merda ao som de Korzus. Isso aconteceu antes que Lorraine morresse; antes que meu Dodge Dart virasse sucata na mão de policiais corruptos; antes mesmo que eu morresse. 

Diversão noturna: o eufemismo que usavamos para explicar a surra que davamos nos playboys do bairro da Casa Alta ao menos duas vezes por semana. No início eles nos encaravam. Depois de um ano quando o Dodge Dart preto apontava na esquina era divertido ver a disputa das bonequinhas para ver quem conseguia correr primeiro. Alguns se mijavam.

O Dodge Dart eu comprei com meu fundo de garantia, quando fui demitido da gráfica após esbofetear o chefe da seção que se negou a me deixar assinar meu ponto corretamente. A justa causa virou acordo. Eu ainda tinha muita porrada guardada para meus superiores.

Infelizmente o dinheiro nunca permitiu que eu pudesse pintar meu carro em um lanterneiro. Mas com a grana que sobrou comprei uma bomba de flit e um rolo de tinta, além dos galões de tinta especiais. Passamos muitos domingos pintando o velho carro. Camada a camada de tinta, cirurgicamente depositada sobre o manto de durepox que consertava as imperfeições da lataria.

Na feira de domingo comprei por uma bagatela um toca-fitas japonês. Roubado, claro.

Meu nome não interessa. As pessoas me conheceram pelo apelido: Carca. Desde criança me chamam assim. E nas noites de litigio profundo da moral, eu, Milha, Porco e Vica habitavamos o Dodge Dart com nossos sonhos que rapidamente se traduziam em pesadelos alheios.

Eu morri depois de Lorraine. E Lorraine nunca andou no Dodge Dart. Eu acho que a amei desde a época que ela ainda se chamava João Carlos e éramos crianças. Mas nunca poderia suportar viver assim. Eu, surrando moleques folgados pela noite. Ela, vendendo o corpo nas ruas paralelas às que eu fazia escorrer sangue.

Eu matei Lorraine. Por vergonha de amá-la. E isso ninguém nunca soube e nem saberá, só agora que eu confesso em forma de uma prosa imbecil o meu crime. E até hoje suspeito que foi por vingança que aquele homem invadiu minha casa e atirou em mim no banho com uma 12. Minha mãe até hoje lamenta que por causa disso meu queixo alinhou-se a nuca. E velório não tivemos.

Eu pensava nela e no meu inexorável destino de ser vítima de mim mesmo enquanto dirigia e trocava fitas no som auto-reverse. Nesse dia, Milha estava pensativo e fazia perguntas estúpidas. Eu pedi que ele se calasse e permitisse que nós vivenciassemos o tédio da madrugada.

Foi num dia 21 de junho, frio e triste, que uma patrulha da Polícia MIlitar mandou que encostassemos. Nunca cederiamos. Esse foi o maior e último delito do Dodge Dart. E a última vez que eu surrei um agente do estado antes de morrer com o rosto estourado por um tiro de escopeta.


- Palhares, por favor, dê informações da situação da diligência, copiou?
- ...
- Palhares, aqui é a central. Correu tudo bem? Precisamos enviar reforços?
- Rodrigues...
- Por favor, soldado, informe a situação exata aí nesse momento.
- Um Dodge dart...
- O que?
- Esses...vagabundos...nem tomaram conhecimento de nossas armas.
- Meu Deus, Palhares, o que aconteceu?
- Mande uma ambulancia pra mim. De preferência com um bom ortopedista. E pode trazer o carro funerário. O soldado Vasconcelos tombou. Aliás, partiu. Ao meio. 
- Santo Deus...
- A música, Rodrigues... a música é terrível. Deve ser realmente coisa do diabo. E se o diabo existe...ele deve ter um Dodge Dart igual a esse.





7.4.12

Corcel II

- Uma boa noite aos ouvintes da sua, da nossa Rádio Cidade Bela. Agora no comando da noite, eu, Sérgio Lourenço, a sua companhia das madrugadas em ondas curtas. São exatamente três e trinta de uma madrugada bela e fresca. É possível que o senhor e a senhora, encostados nessa insônia sintam o olor da Dama da Noite que inunda os jardins de nossa pacata cidade. E para você que nos acompanha do trabalho, de casa, da rua, com o coração feliz ou angustiado, nada melhor que uma bela canção para relaxar. Por favor, Amadeu, meu filho, toca aquela preciosidade que você separou para nós.

Sempre que se aproximava do posto abaixava o rádio. Nunca sabia se o cheiro de gasolina vinha de fora ou de dentro do carro. Diminuiu a velocidade e olhou para o banco de trás. O estofado rasgado, um galão vazio e uma mangueira muito utilizada para roubar gasolina de tanques alheios.

Encostou o Corcel II próximo a bomba de gasolina comum. Desligou o motor e saiu para fumar um Charm longo enquanto o Gordo colocava os mesmos quinze reais de gasolina de sempre.

- Tudo em ordem hoje, Charles?
- Tudo, como sempre, Gordo.

Abriu um botão da camisa de tergal vermelha, ajeitou no peito uma medalha de São Cosme e São Damião. Encostou-se no caminhão tanque e retirou do fundo do bolso um isqueiro Bic que combinava com sua camisa.

Sentia prazer em fumar no posto de gasolina.

De lá o Gordo gritou:

- Nem vou perguntar se quer que cheque o óleo ou lave o para-brisa.
- Isso gordo, fica calado.

Entregou o dinheiro levemente amassado, sorriu de forma cinica e arrancou com o velho Corcel II em direção a madrugada escura. 

Andou vinte quilometros sentindo vento bater no rosto. O único barulho que competia com o motor era o da lataria velha rangendo. A cada curva sentia os amortecedores implorarem por uma troca.

- E olha meu amigo ouvinte, minha amiga ouvinte, quem nos escreveu essa quarta-feira foi a Dona Maria Aparecida dos Santos lá do Canto da Obra. Ela manda um abraço para toda nossa equipe e pede que toquemos uma linda canção que a faz lembrar de sua juventude. Vocês vão reconhecer essa música, tenho certeza que já amaram muito ao som dela. E para você, Dona Maria, o abraço carinhoso do Sérgio Lourenço de toda equipe da Rádio Cidade Bela, a sua companhia na madrugada das ondas curtas.

Antes de entrar a esquerda, numa estrada de terra, abaixou novamente o rádio e ligou o farol alto. Uma das poucas coisas que ainda funcionavam no velho Corcel II.

Avistou a pequena casa em meio a escuridão. Amarela, com duas janelas ladeando uma varandinha singela que dava espaço para a porta da frente. Um suporte de plantas com uma samambaia, no chão um vaso de "comigo-ninguém-pode" dividindo espaço com espadas de São Jorge. Na porta estava colado um pequeno folheto da novena de São Judas tadeu.

Deixou o carro aberto. Antes de se dirigir a casa abriu o porta-malas e de lá retirou uma pesada bolsa de couro velha e surrada. Fechou. Observou que a noite era especialmente bela. Uma lua crescente decorava o céu e iluminava o silêncio que mal era pertubado pelos carros que passavam longe na estrada. Resolveu que havia ainda tempo para mais um cigarro. Pensou que um dia deveria se desfazer do velho Corcel II, que nada duraria para sempre, nem mesmo seu carro, companheiro de muitas madrugadas.

Se dirigiu a porta. estava aberta. A casa estava escura. Apenas um fio de luz parecia vir da área de serviço. Era possível ouvir um rádio baixinho. Ela estava ao lado do rádio, com seu vestido de flor. Lenço na cabeça, tradiocionalmente utilizado em noites que cuidava do cabelo usando seus velhos rolinhos. Parecia dormir ou orar.

Ele parou a dois metros de distancia. Foi quando ela sentiu sua presença.

- Você?

Ele permaneceu em silêncio. Deixou transparecer um sorriso, cínico como qualquer um que ele distribuia. 

Abriu a bolsa de couro em meio a casa mal iluminada. Era possível para ela apenas ver que ele havia retirado algo e erguera o braço em meio a penumbra. Deu dois passos a frente.

A voz dela exalava um desespero cansado.

- Não, por favor, o alicate de novo não, tem mais de uma semana que você vem aqui com esse alicate, eu não aguento mais!

O Corcel II nunca vira sangue no piso de ardósia.

- E então meus amigos e amigas, nada como o amor que toma conta dos corações dessa terra. Eu, Sérgio Lourenço tua voz amiga das madrugadas vou me despedindo mas claro, sempre com o compromisso de voltar, por que as madrugadas são dos amores mais sinceros e nobres. Sinta bem meu amigo e minha amiga, é o olor de Dama da Noite que percorre os cantos de nossa pacata e familiar cidade. Vou embora deixando uma canção belíssima e claro desejando que todos vocês fiquem na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E lembrem-se, esse programa é mais um oferecimento do Posto Caminho da Felicidade, a sua parada ideal nas noites de viagem. Um abraço!



3.4.12


2.4.12

desagradável poema

Ao Anderson Pires da Silva
“O poeta contemporâneo tem de ser perigoso como Dante foi perigoso; uma força respeitável frente às demais forças sociais”  Mario Faustino


não sou um poeta pós-utópico,
nem ao menos idólatra vil
da materialidade da linguagem,
de pesados livros de estética.

a poesia esotérica ficou
nos meus idos anos de espiação,
quando antes, havia sido surrado
pela concretude das palavras.

[alguns diriam que esvaziei a alma cedo]

nunca andei à margem que não fosse
a da linha férrea do subúrbio,
onde a poesia proibida, nascia
em bocas mudas e olhos fechados.

[vem daí a libertação da alma pelo samba]

§ onde parece que nada sobrou, restou um caminho.

uma trilha de sombras e riscos,
onde a esfera da experiência
conjuga-se no dar vida a vida,
deixá-la ser capturada pelo
imenso abismo da linguagem.

dentro dessa rapinagem, afoita
estranha, dolorosa e envaidecida
tudo será enorme e arriscado.
um jogo sem volta onde esse ser
: poesia! tem vida e vontade própria

resta - e não é pouco - abrandar
o sufoco, e centrar-se no lodo
escorregadio mas permissivo,
de ser perigo, surpresa, susto,
inquietação, rude assombro.


30.3.12

octaedro

são páginas dissonantes, meu amor.
segredos de linguagem, fúria.

é que as vezes só podemos portar
um lápis e uma folha solta.

&
tende a ser viril, mágico, alcunha
de nós mesmos. duas pirâmides
amando em geometria espacial.

quando de um beijo na Calle Defensa,
e ao longe o senhor de óculos dizia
: é apenas uma canção de Pizzolla.

mas lembre-se, nessa casa nenhuma
mas nenhuma parede é paralela, e sim,
ainda sim me permito amar de canto.

por que há sempre duas palavras mágicas
- eu quero!
acionadas pelo barulho da tampa da garrafa
que desprende o gás, ecoando pela cozinha.

existe a arte de massagear dois pés,
com apenas uma mão, enquanto canções
desfilam impunes pelo toca-discos;
amor de panturrilhas.

faria um tango sobre amores que nascem
em ônibus em movimentos,
uma balada sobre o sofá-cama que
se abriu tantas vezes em tardes livres.

um soneto sobre o corpo que recobre
e faz um mundo.

mas seriam só palavras, e a linguagem
às vezes é apenas um ser vivo de
autonomia irritante que desconhece
as coisas do amor.

25.3.12

medicamento

corpo, uma coordenada
de fios tênues, ossos, pó.

bula: não requisita pré-
indicações, ou contra-
funções.

permeia andar.

corpo, mavioso ainda
que por um segundo

: primeiro!

69 % do corpo é anágua
20% é água,
e 1% é lavra.

corpo malato
cuerpo rígido
 
hay muchos peligros  
en las venas que pasan
 
é a mochila-casco, o
penhasco salto, alto.

corpo, admoestado.
com manual de 
desinstrução.


22.3.12

doce e cortante

- el arte de viajar -

do encontro, mesa de bar.
corpos juntos, dedilhando coxas.
 
- justo a tiempo -

teu marlboro, e a rubra brasa
que ilumina o quarto, breu.

 - la canción del silencio -

quebrada apenas pelos
doces pés, tocando chão.

- las picaduras de placer -


o entendimento de que:
tempo escasso, marcas de amor.

- la ambivalencia del deseo -

dois tempos: do desejo incontido
ao aninhar sem amanhã.

- las razones para el encanto -

a tatuagem, o salto que adorna.
o sorriso de olhos apertados.


19.3.12

fogueira

não se permite mais , nem menos
escrever em tom confessional.
- ensejo, puro.

a vida toda linguagem de Faustino
nunca poderia dar sentido, em vão.
- tanto sentido.

a cortina das metáforas exploradas
constituem um ser vivo, automático.
- dicionário de expectativas.

o conjunto dos conselhos dados,
forma uma pilha de papéis, lidos.
- gramática do viver.

seguir rota de um caminho, perdeu-se.
habitua-se trocar mapas por bússola.
- cartografia do medo.

desencontro é  detonador de bombas;
não há mais suicidas a se alistar.
- bandeira branca manchada de sangue

a expectativa de poeta é caneta falha,
esferográfica que rasga carne, inteira.
- decantar é a palavra infeliz do dia.

para quem desfere remotas palavras,
silêncio é o desmando da norma sã.
- ansiedade em estenografar.

em dias de frio e solidão sincera,
nunca ouça conselhos de poeta.
- fazer fogueira com pilhas de poemas.


9.3.12

meu, teu, nosso

meu portugues esquivo no teu ingles castiço
meu habitus suburbano, em teu francês correto
minha janela aberta, meu espelho quebrado.

meu quarto sujo.

teu corpo que recobra sentidos,
com minhas grosserias e palavrões.

minha barba que cheira conhaque,
na tua nuca.

meu banho dado em ti, na pia quebrada.
nosso banho de gato.

meu convite pra começar de novo.
teu pé, amarrada ao pé da cama.

teu tapa na minha cara, me chamando de

"-menininha"

teu corpo que arqueia, cada vértebra que marca
meu desenho predileto.

meu pedido de casamento, meu choro,
tua coragem, teu sopro.

nossa sociologia crítica da fodinha de corredor

6.3.12

antes e depois - II

*depois*

buscou quase cego, tateando a escuridão de cortinas, baixar o volume de um velho som estereo, na cômoda de frente a cama. em vão. tropeçou nos pares de sapato espalhados no chão. sentiu o peito quente e suado tocar o piso de tábuas corridas, frio, indiferente. ergue-se aos poucos apenas pelos braços, coçou a barba. sentiu que apenas um fio de luz penetrava pelo cortinado. o suficiente para deduzir que era dia. arrastou-se, pouco a pouco, como quem junta pedaços até conseguir encostar-se na parede. 

acendeu o último cigarro, torto. sentiu o peito chiar. omitiu-se na nuvem de fumaça; esconderijo predileto.

provavelmente o estereo ficou ligado por toda madrugada, quase no volume máximo. e mesmo assim dormiram.

Billie Holiday era um clichê em loop eterno.

I'm a fool to want you
To want a love that can't be true
A love that's there for others too

Ela se mexe na cama, dobra as pontas dos pés, e as estica tal qual fosse a bailarina do caos, uma prévia do exorcismo das câimbras. Gira o corpo, maltrata os lençóis. da cama, cai a garrafa vazia. rola até seus pés. quase vazia. 

um primeiro dos últimos goles possíveis em uma manhã. nunca o conhaque haveria de ser tão amargo.uma gota, talvez a última das que valha a pena, escorre pelo seu peito. impossível impedir. resignação.

I'm a fool to hold you
Such a fool to hold you
To seek a kiss not mine alone
To share a kiss that Devil has known

caminhou até o banheiro enquanto ela dormia como um bebê, apesar dos pés se retorcerem. precisava descobrir como amenizar as marcas de algema em seus pulsos. e criar coragem de desligar o estereo.

*antes*

atropelar um cordeiro, e deixar a sensação que a madrugada começaria como um ritual.errado, ainda que instintivo, ter ligado o limpador para tirar gotículas de sangue do para-brisa. um vidro rosa. uma madrugada cinza.

ela riu, de forma macabara. talvez mais da cara de susto que ele demonstrou. se calou diante os últimos gritos do bicho. grito de bicho. cheiro de pneu queimado. para seguir viagem, era necessário desamassar o para-choque, e um pedaço do paralama.

ela apena sorria. ele sem camisa. ela com os pés no painel. aniquilava a garrafa no bico. no silêncio da madrugada ouvia-se apenas o som da bolinha do dosador. 

voltou com as mãos e rosto sujo. ela o limpou singelamente com as mãos umedecidas com saliva. seu olhar agressivo e sarcástico deu lugar a uma expressão de cuidado e carinho. surpresa.

antes que pudesse pedir um beijo, coisa de homem que se comove, ela ligou novamente o rádio do carro, e rasgou seus ouvidos com a voz imperativa.

- vai. continue dirigindo. anda.

ligou o carro, obediente.

dobrou a esquerda no primeiro trevo e avistou a placa do hotel. neons de esperança, oscilando.

ela saiu antes dele, descalça e antes que ele completasse a frase, relembrar dos sapatos, ela sinalizou negativamente com as mãos sem nem olhar para trás. soltou os cabelos e olhou profunda, para a madrugada sem nome e sem cor. mexeu na bolsa.

taticamente, retornou em sua direção enquanto ele ainda fechava o carro. arrancou as algemas e jogou em seu peito.

dor.

- isso é pra você. aceite calado. e não me acorde antes de duas da tarde.



1.3.12

37 dias

não fossem dias, contados
seriam madrugadas,
travestidas de rotina.

júbilo, estreito.
caixa de ansiedade,
corda de amor.

já retirei de uma caixa
todos os discos
de Aldir Blanc,
uma garrafa de conhaque.

o cheiro dela que nem senti,
guardado em meu corpo
é consolo.

um sorriso.
um olho.

a esperança de uma mordida.

cada dia do calendário,
pede um arranhão.

26.2.12

vestido branco - final (+18)


O homem gordo e de bigode falava pausadamente com um sotaque que não parecia portenho. De minuto em minuto ajeitava os pesados óculos velhos que lhe davam um ar vintage. Parecia um personagem saído dos anos 70.
“a crítica literária em toda América e em muitos casos na Europa tem sido tomada pelo mesmo espírito infantil que queria que ela desaparecesse. Se por um lado, há tempos, pós-modernos clamavam pelo fim da crítica alegando que a mesma não poderia sobreviver se apoiando em conceitos, hoje o que vemos é um discurso relativista mas apoiado tão somente em conceitos. Veja o caso da crítica a Cortázar, muito comum em meios acadêmicos. Se apóia  em argumentos que não se sustentam. A própria crítica os ratifica sem perceber. Mas sejamos justos, exigir que a crítica literária seja precisa ou isenta é esquecer que hoje ela serve apenas aos interesses das editoras que não tem onde mais garantir a qualidade de seus novos quadros que não seja na validação e status quo da crítica em cadernos literários de jornais que só uma parcela da população lê. E claro, a ganância academicista. Para preencher currículos, ganhar amizades e poder, a crítica literária acadêmica insiste no discurso da refutação.”
Guilherme achava o discurso contundente do gordo um tanto quanto enfadonho. Advogava internamente em causa própria ao recebê-lo assim.

As pessoas na roda teceram comentários mais curtos, citaram passagens de livros de autores argentinos, uruguaios e brasileiros. Leram trechos de críticas em jornais e sites da América do Sul. Gabriela observava a conversa com um sorriso doce no rosto. Olhos em posição de reflexão e atenção.

Movimentava as sobrancelhas para demonstrar algum tipo de sentimento a mais. Terminada a rodada, indagou a ele, se não gostaria de dizer algo.

- É, eu gostaria apenas de agradecer pela possibilidade de estar aqui nessa tarde por acaso, e dizer que a experiência é muito rica, esse intercambio, é, entre, através,é, dos diversos olhares que temos da literatura, enfim... é isso.

Gabriela observava cada palavra dele com ar de descrença. Sorria cinicamente como se fosse capaz de refutar até mesmo o mero comentário formal de agradecimento dele.

Levantou-se e com os braços abertos encerrou o encontro, dizendo que o próximo seria marcado através de uma lista de emails.

Guilherme levantou-se em seguida, ajeitando a gola da camisa no intuito de respirar melhor. Depois dessa ampla experiência de constrangimento parecia suar mesmo debaixo do ar condicionado potente de El Ateneo.

As pessoas aos poucos foram se dirigindo à saída da livraria. Ele timidamente acompanhou.

A moça que deitara a cabeça no ombro de Gabriela era um típica portenha. Usava um vestido branco curto e relativamente transparente, chinelos Havaianas. Cabelos longos e frizados, e um – aos olhos de Guilherme – detestável rabo de cavalo de lado, uma espécie de obsessão das mulheres comuns de Buenos Aires. Magra, bonita, com as maçãs do rosto avermelhadas pelo sol, nariz alongado, olhos verdes. Uma mulher encantadora.

As duas se falavam frente a frente enquanto Guilherme se aproximava e quando ele pensou em se pronunciar, talvez dizer que iria embora, que foi um prazer te rever, as duas se abraçaram, trocaram palavras – era impossível compreender o que elas diziam pois estavam discorrendo um espanhol carregado na chamuya.

Ele parou a fim de evitar interromper uma conversa tão próxima.

As duas cessaram a conversa, sorriram, e se despediram com um leve, porém lento beijo nos lábios.
Guilherme ficou imóvel.

Gabriela observou a mulher ir embora lentamente e enfim, virou-se a ele.

- Hei, Chico!
- Olá, Gabriela.
- Me diga como está e por que voltou tão cedo à cidade? Confesso que estou surpresa.
- Problemas a resolver , relativos ao livro.
- Hum.
-Me diga, como você está?
-Vem que te conto.

Ela puxou-o pelo braço e ele reparou a tatuagem do pescoço. Letras simples e pequenas, caixa alta, com a expressão “Amantes Clandestinos”. Surpreso, deixou-se levar pelo braço, na certeza de que poderia estar sendo conduzido mais uma vez ao fundo de sua alma.
Saíram sentindo o bafo quente do calor. Ela ainda não soltara seu braço. Andaram um bom tempo pela Callao em silêncio. Ele observava seu cabelo, curto, estranhamente curto. Sentia uma mistura de acolhimento e pavor lhe percorrer a alma, mas era incapaz de dizer qualquer coisa.

- Que tal caminharmos um pouco e comermos alguma coisa?
- Pra mim, está ótimo.
- Ao Tortoni?
- Sim.

Andaram por cerca de 40 minutos. Desceram a Callao até encontrar a Corrientes. Lá ele observou a
movimentação dos teatros e cinemas, ela contou histórias de espetáculos que ali teria assistido. Sorriu muitas vezes, parecia bem.

Dobraram a Cerrito, próximo a Plaza de La Republica.

- Gabriela, essa tatuagem nova...
- Bonita, não é? Feita as pressas, mas bonita...

Dizia isso rindo.

- Sim, mas é que você...

Em um movimento súbito ela parou. Virou-se na direção dele, o pegou pelos dois braços, o encostou no poste mais próximo e olhou em seus olhos, dizendo em tom áspero, porém com um sorriso no rosto:

-
Uno
va internándose
en la fatiga horizontal que llega
a seducir los huesos
y el silencio
como si fuesen huéspedes fugaces
o amantes clandestinos.
Y un día
nos sorprende descubrirnos
dueños de una morada
abierta a la intemperie de toda soledad.
Vamos tendiéndonos
junto a nuestra sombra arropándonos con ella.
Hay un cambio de piel
que nos desnuda.
Y la fatiga invade.
Murmura otros idiomas
que no son extranjeros pero emplean
sin voz
otras palabras.
Para no herirnos.
Para no decirnos que hemos comenzado
a habitar el adiós
.

Guilherme permanecia quieto, imóvel. Hipnotizado pela voz e pelo poema.

- Ana Emilia Lahitte, Amantes Clandestinos.

Piscou e soltou seus braços.

- E o que significa para você?
- Uma cicatriz da última queda do trem.

Rapidamente estavam na Avenida de Mayo. Notava-se o dia se encerrando, pessoas saindo dos escritórios, trânsito intenso, e as mesas dos cafés se enchendo.

Chegaram ao Tortoni e se acomodaram. Ele pediu um refresco e um Hamburguesa. Ela, café latte e medialunas.

Por cerca de uma hora conversaram. Primeiro ele explicou com detalhes a situação do livro. Ela achou graça. Depois ele questionou o repentino desaparecimento dela, imprevisível mediante a tarde agradável do dia anterior. Ela disse coisas e mais coisas sobre a necessidade de submergir quando a superfície parece insólita. Tentou deixar claro que pouco havia relação com ele. Era uma decisão mais que tomada há tempos e que portanto não deveria ser tomada como um desleixo. Ele questionou por que não avisá-lo. Ela sorriu, disse que não deveria avisá-lo de cada passo. Mas que o bilhete era uma clara exceção de carinho e que ele deveria aceitar dessa forma. “E por que não um convite prévio, planejado? Por que eu acho que na verdade não queria você lá”. A conversa fluía tranqüila mas com sobressaltos. 

Guilherme sentia-se satisfeito com tanta sinceridade mas ao mesmo tempo incomodado com a despreocupação dela. O desprendimento. Perguntou pela banca e ela deu respostas evasivas sobre sua saída de lá, e explicou de forma muito metafórica o que seria seu novo trabalho.

- E a garota da livraria?

A expressão de Gabriela tornou-se menos alegre, porém não menos terna.

- É uma pessoa muito especial, eu diria que foi um grande amor. Chama-se Clara.
- Mas você viajou para vê-la?
- Não interessa.
- Vocês estão namorando?
-Também não interessa.

Ele, encostou-se novamente na cadeira, com a sensação de que não deveria insistir em perguntas desse tipo. Bebeu um ultimo gole de refresco. Olhou ao redor, percebeu os turistas, a movimentação.

- Ok. Vamos embora? Estou louco para fumar.

Caminharam fumando pela Avenida de Mayo. Alternando conversas triviais e momentos de silêncio. 

Pararam para ver por alguns minutos a apresentação de um artista de rua, na esquina com a Esmeralda. Algo muito próximo do folk, cantado em espanhol.

Caminharam um pouco mais até a Plaza de Mayo e mais uma vez ficaram frente a frente.

- Então, Gabriela, feliz em te ver. Mas tenho que ir para o apartamento. Amanhã gostaria de acordar cedo para tentar resolver essa situação.
- Vá ao seu apartamento, mude a data do vôo. Dificilmente você terá tempo hábil para resolver isso, tendo em vista o piquete. Tome um banho, relaxe, depois vá até o meu apartamento. Ficaria feliz em ter sua companhia.

Ele, mais uma vez se negou a tentar argumentar ou resistir.

- Por que não vai até o meu apartamento você? Já conhece o caminho....
- Não. Não gostei de lá.

Ela anotou o endereço e sumiu em direção ao subte. Ele pegou um táxi e rapidamente estava em Palermo.

Deitado na cama com o laptop no colo, Guilherme pensava o que fazer. Já havia conectado o smartphone ao PC para usá-lo como modem e navegava, ainda que com dificuldade. Trocou a data do retorno para daqui há cinco dias como quem compra uma passagem para o inferno.

Tomou um banho e por volta das dez da noite estava já em um táxi rumo ao apartamento de Gabriela.

O apartamento ficava em um pequeno prédio residencial em Colegiales, na Frederico Lacroze. 

Aparentemente um prédio dos anos sessenta, não muito bem conservado. Não havia porteiro e na entrada três gatos se enroscavam enquanto revezavam um pequeno porte de ração deixado por alguma alma boa. Os interfones ficavam dentro e eram alcançados com um pouco de esforço. Tocou errado duas vezes, devido a escuridão.

Subiu três lances de escada e ao fim do corredor aos poucos a luz que saia do apartamento indicava o caminho com maior facilidade. Gabriela o recebeu de short, uma camiseta branca e velha da banda The Cult. Descalça. Cabelos molhados. Parecia extremamente linda.

- Hola, Chico!

Ela o beijou no rosto e o conduziu ao interior do apartamento. Quarto, sala, uma cozinha pequena, área de serviço e banheiro. Na sala, um sofá velho dividia espaço com duas estantes abarrotadas de livros, um aparelho de som enorme e uma mesa cheia de papeis, com duas cadeiras. No canto haviam caixas, muitas. Aparentemente uma mudança que mal havia sido desfeita. Dali era possível ver que a cozinha tinha um fogão, armários embutidos e alguns utensílios delicadamente pendurados numa estante de canecas de todos os tipos.

- Sente-se, me perdoe a bagunça.
- Não se preocupe.
- Escolhe uma música pra gente.

Em meio aos discos ele só foi capaz de reconhecer Piazzolla. Resumiu a decisão dessa forma.

Tomaram algumas garrafas de Del Fin Del Mundo, jantaram milanesas e ensaladas, que Gabriela havia comprado num restaurante de sua predileção.

Levemente tontos, pareciam mais a vontade. Conversaram sobre inúmeras questões da vida. Ela a todo momento o provocava com suas alfinetadas doces sobre sua obra e a nueva geracion de escritores brasileiros. Ele, relevava, sentia-se confortável e tranqüilo.

Ela deitou-se no sofá e colocou os pés sobre ele. Lindos pés, claros, desenhados, delicados. Ele relutou em tocá-los. Observava seu rosto. Avermelhado pelo vinho. Ela o olhava atentamente Em silêncio ficaram. O cabelo ainda mais curto deixava seu rosto mais evidente. O olhar que o anestesiava era ainda mais direto e duro.

Ela percebia seu desconcerto e esboçava um sorriso, sempre.

Gabriela levantou-se do sofá, como de praxe, sem maiores cerimônias o puxou pelos braços e o conduziu até o quarto. Acendeu a luz. Era um quarto pequeno, apenas com uma cama de casal, mesa de cabeceira e um armário.

Jogou-o na cama e em seguida se colocou por cima dele. Beijaram-se por alguns minutos. Ele a tocou e deixou que ela o tocasse. Tiraram as roupas. Ela parecia mais linda do que nunca. Ficou de pé por uns segundos pois sabia que ele a observava. Caminhou em sua direção e o beijou, descendo lentamente com os lábios pelo seu corpo até chupá-lo intensamente. Apertava suas coxas e fazias movimentos fortes com a boca, permitindo que seu pênis tocasse sua garganta. Percebia que quase sufocava. Seu pescoço e rostos vermelhos denunciavam os momentos de falta de ar. Sua jugular saltava.

Ela apertou seu peito, com força, o arranhando.  Ela movimentava o corpo, lascivamente. Queria sair daquela posição extremamente excitante a fim de evitar gozar já naquele momento. Mas ela não permitiu. Ele sentiu jorrar forte. Surpreendeu-se, mas não teve forças, recostou-se. Enxugou algumas gotas de suor que haviam no rosto.

Ela por sua vez levantou-se e sorriu. Saiu do quarto e voltou. Sentou-se na cama de frente para ele, abraçando os joelhos. Ele sem reação permaneceu mudo.

Reiniciaram. Ela, como da primeira vez sentou-se em seu rosto e comandou tudo. Ele tentava coordenar a própria língua mas era impossível Sentia que ela estava molhada. Porém não conseguia definir seus caminhos. Ela o beijou mais uma vez e o tocou. Estava pronto. Desta vez ela o entregou a camisinha.

Quando ele mal terminara de a colocar, foi deitado de bruços de forma brusca. Aceitou. Não haveria mais limites a serem respeitados. Ali era o espaço onde ele não poderia esboçar reações a qualquer coisa que fugia dos sexo careta com que foi acostumado no eixo Rio-São Paulo.

Ela o chupou por trás intensamente. Uma experiência nova que a primeira vista poderia ser estranha. Mas foi prazerosa. Ela levou as mãos aos cabelos dele. Tocou, acariciou. E por fim, puxou forte arqueando sua coluna.

Ele sentia que nuca doía. Uma incomoda posição com a coluna dobrada. Sentia-se ridículo. Mas seguro.

Ela o beijou no rosto e falou em seu ouvido:

- Não se preocupe com nada, Chico.

Antes que ele pudesse interpretar a frase como um eventual gesto de carinho, sentiu um tranco no pescoço. O cheiro de couro. Tentou abaixar os olhos para entender, mas sentiu a pele queimar enquanto os ouvidos identificavam um som estranho. Em poucos segundos aquilo estava em seu pescoço e perceberam que estava sendo levemente sufocado. Ergueu uma mão, mas não tinha forças. Sentia que uma mão dela o acariciava por trás, enquanto a outra o sufocava com alguma coisa que El não identificara. Tentou dizer algo, mas a vista ficou turva e sentiu que iria desmaiar. Antes disso sentiu que ela o aliviara. Estava livre. Desesperadamente ficou de barriga para cima no intuito de retomar o ar. Ela sorria. Ele tinha uma ereção. Percebeu que foi sufocado por um cinto. Sentia-se desprotegido.

Pensou em perguntar o que era aquilo, mas ante disso Gabriela mais uma vez subiu em seu corpo e cavalgou forte, até que gozaram juntos.

Ainda não tinha forças para falar. Não tinha nada em mente para conversar mediante aquela experiência. 

Docemente violado e sufocado.

Adormeceu. Ouviu apenas o barulho do isqueiro dela, e sentiu um cheiro de cigarro.

Acordou com o barulho da rua às oito da manhã, sozinho na cama. Percebeu que ela estava acordada.

Levantou-se da cama e procurou um espelho no armário. Notara uma marca vermelha, forte no pescoço.

Antes de fechar a porta, observou suas roupas, cuidadosamente acomodadas, apesar de poucas.

- Ela não tem nenhum vestido branco. Vai entender...

Vestiu-se  e caminhou até a sala. Gabriela lia o La Nacion. Havia café e medialunas na mesa, além de algumas empanadas.

- hola, Chico!
- Olá.
- Dormiu bem?
- Sim, muito. Gabriela, olha, essa coisa do meu pesco..
- Então, tenho que resolver algumas coisas, se importa se sairmos assim tão cedo?
- Não. Tudo bem.

Tomaram o café em silêncio. Ela sorria, parecia que pensava em algo quando o olhava. Ele, resignado, tentava apenas viver aquele momento, depois de uma noite engimática.

Desceram as escadas do prédio de Colegiales. Lá fora, um belo e agitado dia.

Estava ele mais uma vez diante Gabriela. Disposto a dizer qualquer coisa que garantisse a continuidade daquela história.

- Gabriela, eu pensei muito naquilo que você me disse sobre o trem. Eu passei alguns dia no Rio e tive justamente essa sensação de que passo a vida a pular de vagão em vagão, e nunca tive certeza de que esse trem me leva para algum lugar.

- É. E isso não mudou, chico.
- Por que acha?
- Por que você veio aqui buscar teu livro. Garantir tua permanência em uma zona de conforto.
- Talvez.
- Olha, vou fazer minhas coisas. Se achar que deve, me procura.
- Ok.

E Gabriela foi embora.

Ele resolveu caminhar até Palermo, para ter tempo de pensar. Mas nada muito lógico parecia se articular em sua cabeça. Buscou a documentação e foi até o correio tentar mais uma vez retirar sua encomenda.

Na porta da agencia não havia maiores movimentações e o local parecia funcionar ainda que de forma precária. Entrou e depois de muito tempo de argumentação e de ter que quase implorar ao líder dos piqueteros  conseguiu reaver sua encomenda. Simples. Para seu espanto.

Seguiu para o apartamento de Palermo em um táxi e passou o resto do dia escrevendo e refletindo sobre os acontecimentos do último dia. Sabia que pouco teria como mudar algum rumo na sua vida, ainda que mínimo. Tomou alguns comprimidos e deitou-se as nove horas da noite. Acordou meio dia, com uma sensação enorme de ressaca.

Não havia o que mudar, mas não se permitira mais evitar o contato. Estava disposto ao menos de ter Gabriela na medida possível. Aceitar os riscos de ser tocado como nunca, de se aventurar de forma que até mesmo sua integridade física e emocional pudesse ser abalada. Ainda que isso lhe custasse atordoar ainda mais sua existência no Brasil.

Caminhou até o restaurante mais próximo por volta de duas horas e almoçou. De lá seguiu até Colegiales, disposto a estar com Gabriela pelo menos mais uma vez naquela estada em Buenos Aires.

Enquanto cruzava a Zapiola, acendia um cigarro após o outro. E tentava buscar palavras que lhe permitissem fazer entender-se.

Tocou o interfone. Não obteve resposta. Insistiu, mas parecia inútil. Aguardou alguns minutos. Uma moradora saía, e ele aproveitou para subir.

Na porta, um pequeno aviso ao zelador dizia que as correspondências deveriam ser enviadas para um endereço em Belgrano.

- As caixas. Poucos móveis. Uma mudança. Mais uma vez, sem avisos.

Anotou o endereço e foi até um kiosko na Jorge Newberry. Com muito custo conseguiu ter acesso a uma lista de telefones. Identificou o número pelo endereço e ligou. Do outro lado, uma voz de mulher, seca e ríspida o atendeu.

- Alô.
- Boa tarde, desculpe-me o incômodo. Gostaria de falar com Gabriela, é esse número?
- Sim. Mas ela não está.
- Perdão, com quem eu falo.
- Clara.

Sim. Tudo faria sentido.

- Ela foi buscar a filha na escola. Deve voltar mais tarde. Algum recado.
- Não... obrigado.

Desligou. Caminhou pelas ruas de Colegiales, errando ruas, até chegar em Palermo, sem ter a capacidade articular nenhum pensamento. Apenas detinha-se na certeza de que nunca seria capaz de ter qualquer tipo de controle sobre a realidade que o cercava e ao mesmo tempo o ignorava.

Lembrou que sua mãe nunca lera um livro seu. Estava sempre atarefada e não se interessava por literatura. Pensou em Thais. Mariana. No Rio. Pensou em São Paulo, sua zona total de conforto.
Pensou que seria talvez  o momento de ligar para a ex-namorada, resolver os imbróglios, casar-se, ter filhos, levar uma vida convencional.

No apartamento, conectou-se a internet e no site da TAM percebeu que seria impossível trocar a data da passagem.

Pensou em quantas coisas seria capaz de viver sem conhecer. Quantas vezes seria capaz de conhecer e re-conhecer Gabriela. Quanto valeria para si a experiência indubitável de não ter nenhum poder sobre uma mulher ser incapaz de solicitá-lo.

Ainda sob efeito de fortes dores no estomago e na nuca, com as mãos levemente tremulas, resolveu que 
deveria comprar um assento no vôo da TAM daquele mesmo dia. Tempo viável. Juntou as poucas roupas que havia tirado da mala. Salvou as alterações no arquivo e guardou o pendrive no bolso para evitar qualquer sentimento ruim.

Já na calçada, aguardando o táxi, parecia que nenhuma mulher de Buenos Aires usava um vestido branco.

E sua última lembrança da cidade seriam os verdes campos de Ezeiza.


25.2.12

vestido branco - parte 4



Guilherme entrou no quarto, seguido de Mariana que tentava entender o que havia acontecido. Sentou-se na cama, trouxe as mãos espalmados ao rosto, respirou fundo e assim permaneceu tentando imaginar o que teria acontecido efetivamente. Ela caminhou devagar pelo quarto, exibindo uma face de preocupação e confusão. Sentou-se ao lado dele.

- O que houve, Guilherme? Fala comigo.
 
Ele sem tirar as mãos do rosto.
 
- Nada, Mariana, apenas um problema muito sério.
- Ei, lindo, eu tô aqui, posso te ajudar em alguma coisa.
 
Por um segundo ele sentiu o rosto queimar. A ansiedade gerada pela situação o colocava em um patamar de irritação acima do normal. Sentiu mais uma vez o suor descer pelo rosto e a nuca doer. Em tom ríspido e agressivo, elevou o tom de voz.
 
- Olha Mariana vou te dizer mais uma vez, não há nada que você possa fazer, ok? Você não deveria estar aqui, então por favor, não me crie mais problemas que eu já tenho.
 
Ela ouviu cada palavra com atenção, levantou-se da cama e sentou no chão, encostando o corpo na parede oposta. Abraçou os joelhos e ficou em silêncio. Apenas observando os movimentos dele.
 
Ele abriu o laptop, conectou-se ao Skype e ao mesmo tempo buscava fazer uma ligação através do aparelho celular. Parecia não obter sucesso. Andava de um lado ao outro do quarto. Demonstrava extrema preocupação. Entrou e saiu do banheiro duas vezes, lavou o rosto. Tirou e colocou o tênis, abriu e fechou janelas. Depois de quase trinta minutos de movimentos frenéticos sentou-se novamente na cama. Observou Mariana. Parecia uma criança assustada, mas que assim como as crianças, mesmo depois de broncas aguardam o perdão e a complacência.
 
- Ei, sai do chão. Senta aqui em cima.
Ela ergue-se sem pestanejar Abriu a bolsa e tirou algo.
- Quer fumar um?
- Sim.
 
Fumaram durante algumas horas. Ele explicou a história por alto. Ela não parecia mais a menina falante e excitada do filme. Ouvia e fazia gestos com a cabeça. Adormeceram ali mesmo. Os dois na cama, cada um virado para um lado.
 
Às oito da manhã Guilherme levantou-se e foi direto para o telefone. Com medo de maiores dificuldades de comunicação usou o telefone do hotel. Conseguiu contato logo de primeiro com a portaria do prédio de Palermo. O porteiro, o mesmo que havia deixado o recado anteriormente não estava, mas foi logo encontrado por rádio e explicou a situação.
 
A encomenda estava retida em uma agencia dos correios em Buenos Aires por um erro de endereço. Porém um imbróglio estava formado. O remetente era o próprio Guilherme. Sendo assim, ele mesmo teria que retirá-lo. Tentou argumentar sobre a possibilidade de enviar uma autorização para que outra pessoa o fizesse. Porém rapidamente foi explicado que em casos de encomendas que contém algo considerado de valor para destino internacional, apenas o remetente poderia retirar. Existia uma possibilidade de terceiros retirarem a encomenda, mas seria um processo relativamente longo e incerto.
 
Guilherme desligou, prometendo ligar novamente. Sentou-se na cadeira que havia junto a mesa do quarto e colocou os olhos ao horizonte através da janela. Sentia-se uma vítima de uma conspiração astral, do júbilo da má sorte. Impossível acreditar que teria que fazer uma viagem apenas para buscar um simples pendrive. Mas tratava-se de um trabalho definido. Clausulas contratuais, inúmeras viagens, jantares, e outros mimos proporcionados por uma editora. Uma quebra significaria um prejuízo material e de prestigio incríveis. Talvez um fim de uma carreira.
 
Resolveu não tomar nenhuma decisão. Acordou Mariana e juntos desceram para tomar café no hotel.
 
Por volta das dez da manhã telefonou para sua agente. Explicou detalhadamente a situação, e perguntou qual seria a possibilidade de atrasar em alguns dias a entrega dos originais. Ouviu um sonoro “não” e muitos conselhos sobre os riscos de isso se perder em algum lugar na bagunça dos correios de Buenos Aires. Por fim, ela deixou claro que gastos com passagem era um mal menor, bastava ele as comprar e seria reembolsado. Que deveria logo buscar o livro.
 
Derrota. Mais uma vez, ir a Buenos Aires.

Entrou no site da TAM e conseguiu comprar passagens para o dia seguinte, com intervalo de volta em dois dias. Era o suficiente para buscar o pendrive e retornar ao Brasil. Fazia isso como se estivesse encomendando a si próprio um castigo.
 
Mariana ainda estava lá. Apenas observava.
 
- Bom, Mariana, eu vou ter que resolver algumas coisas, desculpa não poder mais te dar atenção.
- Não tem problema. Me liga quando voltar?
- Sim.
 
Despediram-se com beijos no rosto.
Ele fez as malas rapidamente. Desceu para almoçar no próprio hotel e passou o resto do dia trancado no quarto.  Tentando domar seus demônios.

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopéia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.
(O apaixonado - Jorge Luis Borges)



Os verdes campos que cercam Ezeiza. Uma fixação. O calor abafado da cidade. Um pavor. Olhos cansados de noites péssimas tendo que coordenar na mente a confusão de turistas falando diversos idiomas e taxistas disputando sua preferência quase no tapa. Serviço de mala. Folders de turismo. 

Confusão.
 
Se na vinda anterior a sensação era estranha, desta vez era péssima. Não se tratava mais da cidade que ele não gostava. Era a cidade que havia o expelido. Surrado. Mas nada poderia ser pior ou dar errado. O máximo de transtorno seria aturar um longo debate com um funcionário dos correios. Buenos Aires, seu transporte público irritante. Suas pessoas convictas e informadas. Seu cafés decadentes. Seu povo cheio de si.
 
Solicitou o mesmo serviço de táxi. Para ter certeza de que não perderia um minuto, pediu que o levasse direto na agência dos correios localizada na Avenida de Mayo. Não teria sossego enquanto não retira-se o pendrive e retornasse ao Brasil.
 
Em pouco mais de 40 minutos estavam no centro.  O trânsito estava interrompido no trecho adiante. Imaginou que poderia ser um tradicional piquete, corriqueiro na cidade. Notou pelo número que precisaria andar apenas alguns metros e resolveu descer ali mesmo. Pegou a mala e seguiu andando pelas castigadas calçadas.
 
Ao chegar na porta da agência percebeu que a situação tornara-se muito mais grave e surreal. Tratava-se de um piquete na própria agência. Os trabalhadores dos correios ameaçavam uma greve por tempo indeterminado. Tentou trocar algumas palavras com um daqueles que parecia ser a liderança do movimento. O máximo que conseguiu foi entender que a agência não abriria mais naquele dia. Tentou explicar sua situação mas foi engolido pela confusão de pessoas que se amontoavam na porta. 
Repórteres, populares, transeuntes. Calor.
 
Sentiu-se mal.
 
Percebeu que era inútil qualquer diálogo. Escapou da multidão e dirigiu-se a esquina onde era mais fácil pegar outro táxi. Rapidamente conseguiu.
 
- Para Palermo, por favor.
 
A cada minuto do trajeto entre o centro e Palermo sentia-se oprimido, sufocado. Previa que abrir as portas do apartamento seria algo assustador, angustiante. Um poço de lembranças onde a possibilidade de sair ileso e sem maiores ferimentos seria mínimo.
 
Puxou assunto com o taxista sobre o piquete dos correios. O motorista parecia não muito interessado em dar algum tipo de informação relevante. Portenhos.
 
Pagou a corrida e adentrou na portaria do prédio. Deparou-se com um porteiro folguista. Identificou-se e desistiu de qualquer tipo de contato, indo direto ao apartamento.
 
A sensação de abrir o apartamento não pareceu de imediato tão ruim. Estava tudo no mesmo lugar como sempre. A primeira vista era possível até mesmo dimensionar lembranças interessantes. A máquina de café espresso, o forno elétrico. O chapeleiro com espelho do quarto, que remetia a doce e atordoante imagem de Gabriela gozando sozinha e sem a necessidade de maiores ações dele. O Sofá empoeirado.
 
Abriu as janelas, largou a mala no canto da copa, sentou-se à mesa e acendeu um cigarro. Observou que o sol parecia mais forte e claro que nunca. Tinha areia nos olhos e uma incrível sensação de cansaço. Como se acordasse de um intenso sonho e ainda não tivesse total certeza sobre estar acordado.
Sentiu vontade de rir e ao mesmo tempo de chorar.
 
Levantou-se e caminhou em direção ao quarto. Não iria desfazer as malas. Tirou as roupas e as jogou em um canto. Colocou uma camisa e uma calça limpas, calçou novamente o tênis e lembrou-se de colocar lençóis limpos na cama.
 
A tarde não havia terminado e ele estava ali com incertezas plenas.
 
Estava cansado mas sem sono para dormir. Ainda havia muito sol e claridade lá fora.
 
Resolveu que não haveria mal algum ir até El Ateneo comprar alguns livros e tomar um café. Relaxar em um paraíso de livros protegido pelo ar condicionado.
 
A única certeza era de que não passaria pela Santa Fé.
Caminhou pela avenida Honduras observando as pessoas. Abasteceu-se de cigarros e água num Kiosko e fez sinal para um táxi. Em 15 minutos estava na Callao.
 
Sentiu imenso alívio ao entrar na livraria. Lá fora as ruas eram castigadas por um calor de 36°. Seguiu até o café notava um silêncio agradável no lugar. Relativamente vazio. Poucas pessoas andavam entre as estantes. Retirou alguns livros de fotografia e arte, uma biografia de Borges, alguns livros sobre o futebol argentino e uma curiosa publicação que comparava Nestor Kischner com Lula.
 
No café, um grupo de pessoas formavam uma roda e pareciam conversar. Cada uma delas tinha um livro em suas mãos. Ao que tudo indicava mais uma daquelas enfadonhas rodas de conversa sobre literatura onde diletantes expressavam todo seu amor pela produção local. Percebeu que havia uma mesa mais ao canto e resolveu ocupá-la para que pudesse tomar seu café em paz.
 
Seus olhos se alinharam com o de uma mulher que estava bem no meio da roda. Tentou não dobrar os joelhos mediante a sensação de angustia e aflição. Era ela.
Poderia não ter reconhecido Gabriela. Os cabelos mais curtos do que antes. Um corte quase masculino delicadamente ajeitado com uma pomada. As roupas pareciam as mesmas. Um camiseta preta que evidenciavam os ombros e uma bermuda jeans, rasgada. Nos pés um tênis, delicado, algo que chamava a atenção tendo em vista os coturnos de outrora. No pescoço, uma tatuagem nova, com certeza.
 
Coincidência infernal. Guilherme se recusava a acreditar que em pouco mais de um dia na mesma cidade poderia viver tantas situações inusitadas. Ele, mais uma vez, vítima de sua própria curiosidade.

Desviou o olhar. Parou. Colocou os livros na mesa. A estratégia era simples. Fingiria que iria buscar outros livros e iria embora. Girou lentamente o corpo para dar as costas e evitar que fosse reconhecido. 
Armou o primeiro passo. Mas foi interrompido por uma doce voz, que alternava firmeza e candura.
 
- Amigos e amigas, perdoem por interrompê-los, mas acho importante dizer, que está aqui entre nós o escritor brasileiro Guilherme Lopes. Acho que seria uma grande honra tê-lo aqui nessa conversa, sendo assim, peço licença a vocês para convidá-lo a se sentar conosco e participar. Guilherme?
 
Quando criança Guilherme sentia um grande pavor na sua vida. Adorava escrever redações nas aulas de português. Mas a sensação de maior pavor que o habitava era de ler suas redações aos colegas de sala. Resguardava-se na opinião de autoridade da professora para ganhar nota dez. Mas sentia-se frustrado quando os rudes colegas não achavam graça no que ele escrevia, principalmente as meninas. Quando era obrigado a ler, sentia-se mal. Os olhos pesavam, o maxilar travava. A nuca doía. Suava. O pânico de estar colocado em situações que odiava. O tempo lhe ensinou que a forma mais fácil de lidar com isso, quando não se resolve muito bem os problemas era agir com arrogância e desprezo. Foi o que pensou. 

Faria um sinal de negativo com os dedos, uma expressão de agradecido, e pediria licença por ter compromissos ainda naquela tarde.  Mas a roda inteira o observava, alguns sorriam. A vontade de deixar que a presença de Gabriela o destruísse contou. Sentimentos dúbios.
Caminhou em direção a roda e sentou-se a esquerda dela. A cumprimentou com os olhos, e ela retribuiu com um sorriso. Reparou que sua mão estava entrelaçada com a da mulher que estava a sua direita. Essa por sua vez, após Guilherme se acomodar, parecia voltar a posição inicial e acomodou a cabeça no ombro de Gabriela.
 
Um senhor gordo e de bigode reiniciou suas considerações. E a hora mais longa da vida de Guilherme começou.

22.2.12

fineza

por fineza, entende-se a gentileza dessas de deixar possuir-se.
de permitir ser tomada pelos cabelos, longos.
de solicitar gritos.

ter a pele clara cravada pela mão ávida, fome.
de possuir corpo hipnótico, sorriso que desvela,

encontro de coxa, virilha e felicidade.

entende-se, mistura-se, envolve, revolve
puxa o ar, acende fogo - labareda.

depois de tudo, fineza é olhar corpo cansado
catar com dedo gotas de suor, e trazer aos lábios.

trocar pedaços de dois, em boca, abraço, língua.

19.2.12

ater-se - ou poema pra ser lido junto

quando das coisas mais íntimas, ela só me tem por inteiro.
acostumo-me a pensar em acariciar seus cabelos,
mania de quem se pega em sonho, devaneios de sofá.

apegado aos meus traços suburbanos, minhas idiossincrasias
acho graça de botecos no Leblon, museus, tatuagens.
desconheço tendências da moda, gestos e flores.

apenas me atenho as marcas produzidas pela sandália nos pés,
as pintas que preenchem a epiderme a cada centímetro de corpo,
o leve fio que desgarra do lábio com batom e arrefece,
a forma como as sobrancelhas dizem o que a boca não diz,
a própria boca - e seus movimentos que muito querem dizer,
a voz - tímida e sem jeito - de quem não sabe o que esperar,
e a espera, representada pelo ritmo ofegante e lento,

apenas me atenho ao que tenho, e talvez não seja pouco.


16.2.12

vestido branco - parte 3 (+18)


Desde que descera no galeão, voltando de Bueno Aires, ele não pensou em voltar a são Paulo. Hospedou-se em um hotel de Copacabana e resolveu aproveitar alguns dias que sobravam antes da entrega do material final do livro. O primeiro dia, passou inteiro dormindo sob o efeito de rivotril. Acreditava precisar de um sono desse porte. Trancou-se no quarto do hotel e por lá ficou, quase 22 horas  seguidas, levantando-se apenas para solicitar o serviço de quarto e ir ao banheiro. Assistiu TV, tomou um banho de hidromassagem. Voltou a cama. Controlou os pensamentos da pior espécie. Domou as lembranças da cidade portenha. Pensou em Gabriela. Mais de uma vez. A boca, os pés, os coturnos. Seu jeito de dançar e de olhar. Mas fazia questão de evitar pensar. Se pegou sonhando, de forma intensa: um quarto escuro, onde ele não conseguia acender a luz, parecia não poder abrir os olhos. Tonto, não conseguia se erguer. Sua aflição era interrompida por uma voz doce e sensual:

- hola, Chico!

Quando pensava que havia um sinal de vida, percebia que estava amarrado na cama. Em desespero, acordou do sono. Ou pesadelo.
No primeiro dia desceu a Santa Clara em direção a Atlântica. Quis ver o mar. Passeou pela orla por algumas horas, na intenção de encontrar algo no horizonte. Era como se o mundo, estéril, fosse incapaz de dar respostas naturais a ele. Seguiu em frente, subiu a Bolivar até a livraria de mesmo nome. Hesitou na possibilidade de perguntar pelo seu último livro ao atendente. Fazia isso no início da carreira e se sentia um babaca. Mas era mais forte que ele. Queria ter certeza de que era  um escritor com uma boa editora, presente em todas as livrarias. Arrefeceu.
Sentou-se e pediu um espresso. Aproveitou para ler o jornal do dia. Passar os olhos, já que não se interessava por nada daquilo. Quando abaixou o jornal para tomar um gole do café, percebeu que era observado por um jovem menina, de pele clara, cabelos curtos, magra. Mas atraente. Desviou o olhar. Ela veio em sua direção.
- Você é o Guilherme, não é?
- Sim, sou eu.
- Eu adoro as coisas que você escreve. Li teus livros. Acompanho a coluna na revista também.
Reconhecimento. Mimo. Volúpia. Estou em casa novamente.
- Obrigado, fico feliz.
Ela, diante a reação dele, sentou-se sem ser convidada, e fez um gesto para a garçonete solicitando um café.
- Olha, eu sou estudante de cinema. Hoje vai ter uma premiere de um curta que fizemos, aqui perto, no Roxy. Por que você não vai até lá? Seria o máximo!
Ele não tinha nada a perder. Gostava do estilo PUC, baixo-Gávea, daquela menina.
- Ok, feito!
- Maravilha, deixa eu te dar o convite.
- E qual é o teu nome?
-Mariana.

Voltou ao hotel, caminhando pela Nossa Senhora de Copacabana. Reparava no comportamento das pessoas que sobreviviam naquele pedaço de Rio de Janeiro. Parou em uma padaria e comprou seis maços de Marlboro para garantir tranqüilidade. Mais do que nunca estava entregue ao tabagismo.
Tomou um banho rápido, pegou as roupas que haviam voltado da lavanderia. Escolheu um jeans, uma camisa pólo de listas horizontais. Ajeitou o cabelo com as mãos, calçou um par de tênis.  Desceu em direção ao saguão do hotel e pediu um táxi.
O cinema estava cheio de jovens estudantes com perfil parecido. Descolados, hipsters, indies. Ele se sentia um pouco descolado. Ainda faltavam alguns minutos para que pudesse começar a sessão. Resolveu fumar mais uma vez na calçada. Entre um trago e outro foi interpelado por Mariana.
- Olá, que bom que você veio...
- Obrigado mais uma vez pelo convite...
Os minutos que se seguiram foram do mais complexo cinema experimental e construtivista. Cortes abruptos, planos sequência inesperados, áudio confuso, falas improvisadas, alguma nudez sem maior sentido. Vinte e três minutos de candura adolescente estudantil em forma de película. Ele achou tudo um saco, mas buscava mostra um semblante interessado, era seu papel. Ao final, aplausos e sorrisos daqueles jovens, que provavelmente haviam dedicado boa parte do semestre a realizar aquele projeto de uma disciplina qualquer da faculdade.
Mariana demonstrava extrema felicidade e excitação. Havia sido a produtora do curta. Atropelou Guilherme com uma série de histórias que se emendavam em perguntas e troca de impressões, mas que rendiam pouco diálogo. Ele apenas conseguia se concentrar nos olhos dela.
Belos olhos aliás, por que uma menina assim tão bonita não prefere literatura?
- Ei, a gente queria beber alguma coisa, por aqui mesmo na zona sul, para comemorar a finalização do projeto, topa vir conosco?
- Bem, eu...
- Ah, por favor, vai, a gente mal conversou...
- ok, ok...
Entraram no Táxi com mais dois amigos e foram em direção Leblon. Subiram a Dias Ferreira e desceram em frente ao Esch café. Escolha inusitada. Formaram uma mesa de seis pessoas, já que dois amigos já os esperavam por lá. O que se seguiu foi uma noite de falação incontida sobre cinema e experiências audiovisuais. Depois de algumas horas, Carol, amiga de Mariana tocou no assunto literatura, fazendo Guilherme falar da incrível experiência das palavras. Ele, sem paciência para um diálogo, mas treinado no pastiche, discorreu sobre os dilemas do escritor brasileiro contemporâneo, usou seus mais afiados jargões da literatour do momento. As pessoas o ouviam e balançavam a cabeça, como se concordassem com toda aquela besteira que era dita.
Ao final, pagaram a conta. Bebidas, algumas entradas. E uma sensação estranha, de uma noite razoavelmente vazia.
Na saída, Mariana o abraçou e agradeceu pela presença.
- Você fica no Rio por enquanto?
- Sim, mais alguns dias.
- Nos vemos novamente?
- Bom, devo ficar no hotel terminando de escrever algumas coisas.
Procurou algo nos bolsos e encontrou a nota da lavanderia.
- Toma, qualquer coisa me procura. Estou no quarto 1601.
Beijaram-se no rosto. E cada um foi para seu destino.

Para fugir de eventuais pesadelos, ele dobrou a dose do rivotril. Não sabe se na noite anterior sofreu com eles. Mas a sensação de corpo mole e ressaca de remédio era tão grande que era incapaz de fazer essa associação.
Acordou, pediu o café no quarto. Lavou o rosto, vestiu uma camisa, arrastou a mesa para mais perto da janela e ligou o laptop. Abriu a a mala e retirou uma pequena impressora que usava para suas viagens, conectou no computador. Retirou o HD externo da bagagem de mão e também o plugou. Abriu sua pasta [criação] e dentro dela clicou em [novos]. Reparou que o texto não estava lá. Lembrou-se que havia passado o livro para um pendrive novo, comprado no dutyfree do Galeão. Abriu a mala e procurou no compartimento interno. Nada. Jogou todo conteúdo da mesma no chão e separou roupa por roupa, bolso por bolso. Fez o mesmo com a bagagem de mão. Nada. Sentiu um frio subir pela espinha. Gotas de suor gelado desceram pelas têmporas. Conectou-se a rede wireless do hotel e acessou seu email pessoal e o da editora. Não havia backup. A única possibilidade era ter esquecido o pendrive no apartamento de Palermo. Sentiu uma forte dor na nuca que descia para o estomago. Foi ao banheiro, lavou o rosto e tentou repensar todo trajeto na hora de ir embora.
Abriu sua agenda no laptop e usou os últimos créditos em ligação do Skype para ligar para a portaria do prédio em Palermo. Iniciou uma conversa aflita com o porteiro. Ele tentava explicar o que havia acontecido, o porteiro tentava explicar que há muitos anos não tinha cópia da chave. Porém conseguiu o telefone da faxineira que ia quinzenalmente ao apartamento cuidar das coisas.
Conseguiu contato. Foram minutos seguidos de atropelos em espanhol. Ela com um forte sotaque paraguaio. Ele impaciente e aflito. Ao fim, ela reconheceu que encontrou algo semelhante ao que ele descrevia. Combinaram que ela deveria colocar o pendrive devidamente protegido em um envelope e enviá-lo através dos correios para o hotel que ele estava. Soletrou letra por letra para não haver erro no campo do destinatário. Ela pediu apenas que gostaria de colocar o próprio Guilherme como remetente e o endereço do apartamento de Palermo pois não queria documentar nada em seu nome, devido a problemas que o marido enfrentava na justiça argentina. Feito.
Ele ligou ao fim da tarde para confirmar o envio e respirou aliviado. Percebeu que por causa dessa situação havia ficado quase o dia todo trancado no quarto, de cuecas e sem comer direito. Resolveu que iria sair a noite, para relaxar. Sua estadia no Rio poderia se estender, agora era refém do correio nacional da argentina. 
A possibilidade mais atraente daquela noite era uma tradicional festa do Rio. O bailinho, no MAM. Direcionou-se para lá, depois de fazer contato com um dos poucos amigos que tinha no Rio, o também escritor Lúcio Gonzales. Lucio era tradutor e fazia parte do quadro de uma importante editora carioca. Era alguns anos mais velhos que Guilherme e tinha ganhado destaque por uma adaptação de sua obra principal para o cinema. Era um sujeito calmo, bonito e famoso. Uma bela companhia para quem buscava algum tipo de magnetismo em uma noite carioca.
Se encontraram em Botafogo no apartamento de Lúcio, na São Clemente e foram juntos para a festa no carro dele. Conversaram sobre a vida, o terror das editoras, a falta de inspiração e rumo de suas obras. Um papo sincero. Mas nenhuma palavra sobre Gabriela. Guilherme achava que nunca estaria pronto para falar sobre isso. Principalmente por se tratar de algo que não poderia ser explicado. A frustração do encontros e desencontros com a portenha se somavam a sensação de uma péssima recepção da cidade.
 Sentia um ar diferente ao cruzar o Aterro do Flamengo. Como se estivesse em casa. Via as luzes e gostava. Ainda estava um pouco tenso por causa da chance quase efetiva de perder o livro que devia a editora. Preferiu não contar as histórias vividas em Buenos Aires. Não poderia jamais compartilhar suas fraquezas com alguém.
O Bailinho parecia ser a expressão máxima do carioquismo descolado. Artistas de todos os tipos, celebridades, estudantes, figuras das mais diversas cruzavam o local e dançavam. Os dois encontraram um canto  e se acomodaram. Eram reconhecidos ali, principalmente por estudantes de Letras que circulavam no lugar. O som alto não permitia muita interação. Mas concretizava o que Guilherme queria. Ser tratado como escritor. Mimado. Paparicado. Pediu uma vodka dupla. Lucio não bebeu, temia as famigeradas blitz da operação Lei Seca. Conversaram um pouco mais até que o amigo foi interpelado por um batalhão de groupies-literárias com as melhores(ou piores) intenções possíveis. Deixou o amigo a vontade e foi dar uma volta pelo local. Não sem antes pedir mais uma vodka dupla.
Sentia-se bem ao ser assediado. Duas meninas vieram com seus smartphones e pediram para que ele se deixasse fotografar com elas. Um cara de camisa xadrez e óculos de aro grosso o cumprimentou e tentou dizer coisas sobre seu trabalho. Quase impossível compreender.
Na pista encontrou com alguns conhecidos, brindaram seu retorno ao Rio e dançaram.
Deparou-se próximo aos banheiros com uma linda morena, de cabelos longos, usando um vestido preto, justo e relativamente curto. Salto alto. Buscou seu olhar, mas ele nitidamente o desviava. Ela tinha nas mãos um mojito. Foi em sua direção, aproveitou que já estava relativamente alegre pelas vodkas.
-  Onde a senhorita andou por esse tempo todo? Eu nunca vi você...
Ela gargalhou com vontade, desceu os olhos, constituiu um semblante sério ou irônico. E falou pausadamente:
- Talvez você não tenha percebido onde eu estava por que estava ocupado demais, vomitando no banco do carona do meu carro.
Sim, é ela. A menina da Flip. Meu deus,como eu pude esquecer. Como eu pude dar esse fora. Que diabos é essa conjunção astral que me leva a essa mulher de novo.
- É, então, tudo bem com você...
- Thaís.
-Sim, eu sabia seu nome.
-Imaginei que sim, Guilherme.
- Olha, eu nunca pude me explicar direito. Eu estava um pouco eufórico, exagerei na bebida e acabei...
- Ok, quer fumar um?
Por que não? Essa festa já deu o que tinha que dar, não é mesmo? E ninguém vomita por causa de maconha.

- Pode ser...

Saíram no carro de Thais. Guilherme ainda não conseguia entender bem como poderia ter dado tal vexame diante uma mulher tão linda e aparentemente tão resignada. Reparou mais uma vez em seu tom de pele, tipicamente bronzeado pelo sol. Parecia se exercitar, tinha belas pernas. Uma mulher extremamente vaidosa.
Cruzaram a Infante Dom Henrique com um baseado respeitável aceso. Enquanto ela tragava, ele procurava no Twitter pelo Iphone as possíveis blitz que poderiam estragar tudo. Aparentemente, reinava tranqüilidade na região. Desbravaram alguns quilômetros de asfalto, com o carro perfumado de erva boa. Conversavam sobre amenidades. Ela parecia tranqüila, sem maiores rancores em relação ao incidente de Parati. Sorria enquanto dirigia com uma única mão. A outra acariciava o próprio cabelo. Nunca havia percebido como era linda.
Ela o olhou fixamente, com um sorriso leve. Tênue.
- Afim de terminar a ponta lá em casa?
- Seria ótimo.
Subiram a Pinheiro Machado em direção a Laranjeiras. Ele ainda teve tempo de enviar um sms para Lucio explicando seu sumiço. Chegaram ao apartamento da General Glicério.
O dois quartos era amplo. Cuidadosamente decorado. Um dos quartos era ocupado por uma espécie de escritório onde Thais trabalhava em seus projetos de publicidade. Ficaram na sala. Ela ligou o Ipod em um player e levemente o som de Miles Davis tomou conta do ambiente. Ela acendeu a ponta e fumaram o que restava, rindo de coisas banais.
- Quer uma taça de vinho?
- Sim, adoraria.
Ela levantou do sofá, jogou de lado os sapatos. Caminhou levemente até a copa. Abaixou-se no balcão que a separava da cozinha e colocou sobre ele duas taças. A garrafa estava logo ao lado. Lentamente serviu. Ele acompanhava cada gesto com atenção. Ela ergueu a face, sentia que ele a comia com os olhos. Sorriu. Caminhou de volta ao sofá, a franja caía sobre os olhos.
- Nunca terminei de ler seu livro.
- Não perdeu nada.
Ela gargalhou novamente. Bebeu um pouco do vinho. Tocou os cabelos dele.
- Então devo terminar de fazer outra coisa que ainda não terminei...
Antes que ele pudesse falar ela levantou. Tirou o vestido por cima e jogou os cabelos para trás. Sem sutiã, usava uma calcinha pequena. Sentou-se sobre ele, de frente, e o beijou. Ele arrancou rapidamente a camisa e a prensou forte contra seu próprio corpo, ergueu-se com as pernas entrelaçadas e a deitou no sofá. Arrancou sua calcinha com uma só mão e a chupou. Ela lhe deu a camisinha. Fizeram um sexo básico, suficientemente bom para gozarem juntos.
Por volta das três da manhã atravessou o saguão do hotel. Ao se aproximar da recepção, percebeu que uma menina clara e bonita estava no sofá, de pernas cruzadas. Jeans e all-star.

-  Mariana?
- Não ficou feliz de me ver?
- Não é isso, é que...
- Você disse que eu poderia te procurar...
- Sim, não tem problema. Bom, vamos subir até o quarto, pode ser? Conversamos melhor lá, se importa?
- Não.
O recepcionista pegou as chaves. Junto delas havia uma post-it.
- Um segundo, senhor Guilherme.
-Ok.
- Há um recado aqui para o senhor. Alguém ligou se identificando como “zelador do apartamento de Palermo”. O nosso interprete foi quem precisou atender o telefonema. Diz aqui que é para o senhor entrar em contato urgente “pois uma correspondência que deveria ter sido enviada para o senhor foi retida em uma agência dos correios de Buenos Aires por problemas no endereçamento”.
Novamente a dor descia da espinha e percorria o estômago.
Como assim? O que aquela estúpida fez de errado?
Pegou o bilhete da mão do recepcionista e saiu em direção ao elevador sem falar anda. Mariana veio atrás.

Subiram até o 1601. Mudos.