30.6.11

horário de almoço

arrasa um corredor
com pressa.

faz-se de presa,
conta - fria:

[são 13 horas]

contra-relógio
resta rasgar roupas,
- derrubar cortinados.

espessa camada de óleo
abrilhanta corpo,
(possível ver antes
que se dobre em colunas)

provoca os lábios
do escravo, com os pés
: esmalte novo.

ofega, anela,
mas sobrevive.

A tempo de gastar seu latim:
- Cunnilingus!


24.6.11

é só mais um poema de amor

carnificina no jardim ao lado,

poupem a água limpa
que ainda resta no regador
de brinquedo.



15.6.11

anedota do misógino

-crença-

acredita que o temor diante coxas, virilhas e pés femininos,
não é nada mais que - de forma retumbante - racionalidade.

-este número está fora de área e não possui caixa postal-

Luciana insiste que ele atenda o telefone, antes que anoiteça.
Suando frio, prefere o velho golpe do túnel - e com sede,
escolhe o café de uma livraria de shopping , para tomar uma Sprite.

Ao menos, Luciana e suas amigas, lá, não abririam a boca.

-constatação de homem de meia idade bem sucedido-

Nunca mais foi em botecos.

-casa grande e senzala-

quando sai do shopping center, oferece olhar com lascívia
apenas a mulheres negras, e assim acredita
que faz um favor ao pavilhão nacional.

no fundo, ou no raso, está imbuido de certeza que esse caminho é fácil.

-boa noite, pai!-

mas quem deu boa noite foi a mãe.

-revista é sempre mais agradável que livro-

Chico Buarque de Holanda não passa de uma bicha
que canta canções com [eu lírico feminino].

aliás, a coleção deste compositor - reeditada pela editora Abril - será
o único produto da empresa que não comprará.

-fim do dia, microsoft outlook (1) mensagens não lidas-

from: Luciana
Subject: Adeus

a culpa sempre será dela.

3.6.11

15 horas

15 horas – basta um aceno
de café em xícara duralex.

assinar o ponto,
guardar entre aspas
aforismos de sala de aula.

sacudir esqueleto
em ônibus, transpondo
ponto a ponto a zona sul a leste.

ter fim.

forjar sono em cadeira,
e esquecer que cara tem:
- o crepúsculo.


30.5.11

21.5.11

lembra?

havia felicidade naquela velha porta
que dava pra rua em dias de verão.

quando descobríamos que aquela 
triste e bela canção - feita a mão,
significava algo como clamor.

havia, como uma harpa dedilhada
que procura sentido em conjunto.
um valor no cheiro de guardado
da blusa de lã, quando descoberta,

a cada inverno: guardada em caixas no alto do armário.

sim, havia graça em ver seus pés
de ponta - calçados de meias, a
empinar-se, erguer a blusa e revelar
a brancura da parte de trás da suas
coxas, 
         e a nuca exposta
                                   pelos cabelos presos
                                                                  e os poucos fios
a fazer frio
                e a sorrir de canto
                                            quanto você jurava
                                                                         que gostava.

e era fiapo de vida
restolho de significância
alternando estação.

by Daniel Russell Photography

13.5.11

Cachaça

pinga-teto de engenho,
arde as costas de quem
leva arreio.
 
É máquina de boi, de gente
rodamundo tritura cana em sonho
 
faz sono de poeta, meia garrafa
alegria de bando, sorriso encantado
 
é doce gosto que queima,
projeta a careta, prazer de quem ama
 
leva loucura a cama, jus a carne que tira
gosto, é peso que se segue ao
peso que se solta a cada gole.
 
É brinde de eternidade.



Esta poesia faz parte da série "Letramar". para ler as outras acesse a seção download. Lá é possível baixar as outras.

7.5.11

long beach 1992 a.c

ao Bradley Nowell (in memorian)

quando a estiagem atingia o verão
e o céu azul secava as piscinas
os cabelos parafinados reluziam
e o violão entoava canções
que você aprendeu com seu pai

long beach e suas ruas de
carros populares e calçadas
ocupadas por transeuntes
belas moças, hipsters, junkies
e rivalidades entre bairros

a noite as festas baratas, lotadas
de aventureiros insanos
em busca de verdades eternas
bebendo até o dia raiar
pra buscar mais ondas em Venice
pela manhã.

corria o ano de 1992, era cedo
lou dog roçando o assoalho da
velha van, em busca de diversão
enquanto tocava uma fita k7
dos beach boys.

corpos inertes na máquina
que repousava as rodas
no asfalto quente a se deslocar
em mais um destino na costa oeste

o horizonte era sol
e sua figuração a plenitude
do pouco saber - ou querer.

Foto: http://herot.typepad.com

3.5.11

Eco de Maio


O Eco - Performances Poéticas de maio vem garantir que a primeira semana do mês tenha gosto de poesia.
E uma das missões dessa edição é desmentir um ditado popular. Santo de casa não faz milagre? Faz sim. E para provar isso estarão no palco do Mezcla Anelise Freitas, que vem de Lima Duarte e desembarca em JF trazendo na bagagem seus versos desavergonhadamente verdadeiros e voluptuosos, e Anderson Pires, um dos fundadores do Eco, que retorna ao elenco para disparar sua afiada poesia rock 'n roll, pronta para entorpecer os desavisados.

O Eco traz também uma novidade nessa edição: um set temático especial em homenagem à existência e à essência do poeta cinco estrelas da nossa história, Manuel Bandeira. A obra do escritor pernambucano estará presente na edição de maio do Eco, portanto prepare-se para ver, ler, ouvir e sentir grandes clássicos da poesia brasileira.

Para completar a noite, a galera pode abrir o berreiro com suas poesias no microfone aberto. Lembrando que todo o Eco é regado ao fino som de Mister Pedro Paiva com seus vinis.

É no dia 05 de maio, quinta-feira, às 20 horas (pontuais), no Mezcla (
Rua Benjamin Constant, 720. Centro. Juiz de Fora, MG)
 
E a entrada é franca.
 
Espalhe e apareça.

27.4.11

Forra - audio da leitura da poesia

Essa poesia já esteve aqui no blog (08/02/2011). Apresento agora um audio (precário) da leitura.

  Forra by Tiago Rattes

22.4.11

dançar estante

a estante, obstante,
guardava mais que
a poeira dos livros.

restava a ela, alva,
a picardia dos
dicionários e léxicos.

o sol pujante de
semântica, adentrava
douto, a janela

a fazer, das
amareladas marcas
deixadas, seminário
de gramática.

13.4.11

Reconhecimento - I

as ruas de terra
ou asfalto desgas-
tado, ou as guias
arrancadas ou as
casas sem reboco
ou os postes apa-
gados ou as vidas
entrincheiradas,
ou à espreita da
passagem ou, o
cerne da batalha.

ou a perfeita resign-
ação da paisagem.

nariz empinado é
antônimo de cabeça
erguida - orgulho.

da laje, olhos de
esperança. enchem(se)
retinas. íris.

na cadeira a criança
colore a vida.

e as luzes acesas
fazem noite-espetáculo.

11.4.11

Eco na web

O Eco Performances Poéticas agora tem site:

http://ecopoetico.blogspot.com/

5.4.11

O primeiro Eco de 2011


Poesia, música, diversão, arte, conversas, discos de vinil, microfone aberto, cervejas, encontros e desencontros poéticos: o Eco está de volta, entrando em seu quarto ano de agitação da cena poética de Juiz de Fora.

O foco continua sendo a produção e divulgação da poesia autoral. Mas a composição do elenco desse primeiro Eco de 2011 destaca também o intercâmbio constante e necessário entre a literatura e outras artes:  no dia 07 de abril, quinta-feira, a partir das 20 horas,  estarão no palco do Mezcla o poeta e músico Knorr, a escritora e musicista Juliana Stanzani e a atriz e poeta Raphaela Ramos.
 
Depois das leituras do elenco de convidados, rola o tão amado e esperado microfone aberto. E a já clássica trilha sonora por conta das pickups de Pedro Paiva.  Não se esqueça que a entrada é franca e que seremos pontuais. Convide seus amigos, ajude a divulgar o Eco e - o mais importante - apareça por lá!

(texto de Laura Assis)

29.3.11

Pioneiros - I


A esverdejante folha aponta no  horizonte, e a gotícula faz prisma de cores – é o sol que volta – tangente no globo ocular, mas nem assim desvio o olhar. Pescoço dolorido em cavalgada mira a folha, reta, sempre, obstinado, em busca do destino incerto que me acolhe, a gota escorre – feito lágrima ou suor na testa – galopante em riba de arreio, cravo forte espora em bucho de cavalo doido para chegar antes que a lágrima escorra. Eu sempre disse a Maria Rosa que de cavalo não tenho pena – mas recompenso a água e capim, de preferência daqueles que nascem no Serro ou na Canastra, que dão de beber em teta de vaca leite gordo, nutre filho de senhor, quando roubado alivia fome de Zé-ninguém como eu. E já corriam os oitocentos. Sempre que assim penso, faço reverência ao consagrado Imperador, Às vezes puxo forte o arreio para que Sem-Mortes, meu cavalo, empine, e eu grite, “Viva o Brasil” com a garrucha velha que me acompanha em coldre velho, que ganhei nas andanças por Diamantina, de Maria Rosa. Era sempre oração do dia, para que não usasse a garrucha velha. “Garrucha falha, pólvora molha, mulher de Deus, mas na bainha trago faca de ponta, e essa a preta velha de Vila Rica, na encosta da serra, em casebre abandonado e casa mal alumiada garantiu que nunca falta à mão”. Maria Rosa se benzia e ordenava com as mãos espalhando reza que não me misturasse com as lendas dos pretos que segundo ela, bebiam cachaça e fumavam rolo em nome de santos de mau agouro.
            - Corre, Sem-Morte, pangaré de araque, fél-da-zunha, que a gota vai cair e eu quero chegar!
            De antemão antecipo ao senhor que não tinha gota, nem folha esverdejante. É prosa de peão que de vez em sempre assunta com a imaginação. Mas havia a sombra do sol atrasado que não bastando tardar, vinha de indelicadeza com moleira de andante, gente perdida, homem sem dono, filho sem pai, troço de treva, como eu. Arreia de pé, enrosca galho, tapa na fuça de Sem-Morte. Bico no cantil. Suadeira na lomba, peso da mochila de couro. Bezerro que eu mesmo matei.
            A beiragem do Paraybuna era feia de dar dó. Rio lamacento, água escura, sinuoso que nem lombo de bicho gordo, sem roçado, mas me benzi agardecendo em palavra de improviso ao Senhor do céu – reza de peão não tem bordado – faz gesto brusco e instrui palavra de boca meio fechado. Se vossa senhoria me entende, aprendi a rezar em lombo de mula, as letras nunca juntei, e na igreja, seu vigário balofo nunca permitiu que eu entrasse, desde que roubei moeda na caixinha da santa. Mas quando há fome, não há pecado, e se insiste o padre-santo, eu me entendo com o diabo, nem que seja em briga de faca.

            E lá adiante aparece um morto de fome como eu. Olhos esbugalhados, cara amarela, roupa maltrapilha, daria dó – se o estrupiado não empunhasse um facão de tucum de dar gosto de tão novinho e um rosário de madre-pérola, que já intuí em minha mente brejeira ser pilhado de homem de posse.
            - Vai pr’onde, homem de Deus?
            - Não vou. Já cheguei.
            O estropiado riu de canto feito tinhoso. O senhor saiba, que só não abri um bucho em homenagem aos urubus por que tinha tempo que me decidi por ser homem de paz nessas Gerais.
            - Veio de onde, condenado?
            - Vim das bandas da capital. Mas ouro não há mais, não sou homem de perder viagem, apeio aqui e faço brotar desse chão o que preciso pra viver.
            O maldito dessa vez ria era de boca inteira, e eu rogava a Santa Virgem que me desse paciência e tranqüilidade.
            - Terra não devia ter dono disse o Santíssimo e quem sou eu pra dizer estória de contrário. Fica em paz e na sorte, por que Deus aqui nunca esteve, e o Diabo se veio já pulou fora.
            E foi arrastando esqueleto velho de volta ao pobre vilarejo.
            A notícia é que a fazenda do outro lado é de homem de sobrenome graúdo, e presença gorda nas políticas dessas bandas. O que o homem planta com fé, nem coronel, nem senhor de escravo arranca. Se planto os pés na margem desse Paraybuna lamaceiro ninguém me tira. Cavo e escavo solidão até as ferramentas que Deus deu se transformarem em toco de pau, e arbitrariedade, meu senhor, eu não tolero. Puxo garrucha, quando pólvora molhar a faca de ponta não falha. E se o plantel de escravos ganhar liberdade como querem os doutores da capital, faço voto e presença de invasão nas terras desse sei-lá-quem com sobrenome. E tenho dito. É palavra de peão.

28.3.11

Eco Performances Poéticas no Grito Rock

Estivemos ontem no Cultural Bar, participando da primeira edição do festival internacional Grito Rock (http://gritorock.com.br/).

Esse festival corre toda a América Latina, reunindo bandas do circuito independente. Em Juiz de Fora ele foi promovido pelo Coletivo Sem Paredes (http://coletivosemparedes.wordpress.com/) que tem feito um belo trabalho na cidade em prol da arte e da cultura. Eu e Luiz Fernando Priamo fizemos leituras diversas enquanto nosso amestro Pedro Paiva atacava nos discos, propiciando uma bela trilha sonora. Desde já, agradecemos a todos e todas que prestigiaram, bem como toda galera da casa, que deu uma força, Juliana, Helô, e a Virgínia do Sem Paredes que fez questão da nossa participação no evento.

O registro é da fotografa Thais Thomaz. Ficou incrível, né? Conheça o trabalho dela: http://www.thaisthomaz.com/ 

E caso quiser reproduzir essas fotos, não esqueça de dar o crédito a ela.










19.3.11

Da proibição de festas e outras formas de criminalizar a juventude



Mais uma vez assistimos um velho filme em Juiz de Fora. A prefeitura, sob o argumento de um parecer judicial, resolve impedir a realização de uma festa Rave neste sábado ma cidade.

Antes de qualquer coisa, deixo claro que conheço esse tipo de festa de perto, apesar de não ser um frequentador delas.

Chamo de velho filme por que pouco tempo atrás vimos a proibição de bailes funk no centro da cidade justificadas pela possível violência que as festas poderiam trazer. As raves seriam antros de drogas, e os bailes de violência.

Muitas proibições aconteceram, muita água passou por baixo da ponte e nada mudou. É óbvio que essas medidas nunca surtiram efeito.

A prefeitura de Juiz de Fora foi rápída no gatilho para proibir a festa. Mas tem sido bem lenta na promoção de políticas públicas que possam ajudar na conscientização e no combate às drogas. Estou errado? Alguém conhece um projeto efetivo na cidade com esse tema? Alguma parceria entre justiça e Ministério Público? Se houver, ficarei feliz em ser corrigido.

O que acontece é que infelizmente existe um caminho, com o perdão da palavra, preguiçoso, sempre utilizado. è mais fácil proibir do que compreender o que e fato representam essas festas. É muito mais cômodo a repressão do que a fiscalização e a proteção aos jovens que na sua maioria esmagadora, vão nessas festas para se divertir. Ou será que já esquecemos que lazer é um direito fundamental da juventude?

No ano passado, pessoas foram presas portando drogas na estrada que dava acesso a festa. parabéns a PM, que fez seu trabalho. É isso que esperamos da polícia. Porém isso não pode servir como justificativa para a proibição da festa. Quantas vezes, torcedores de futebol não são detidos antes de ir ao estádio com armas e similares? Vamos proibir o futebol por causa disso? Não existe o consumo de drogas em outros espaços?

Lamento crer que isso ocorre, fundamentalmente pelo fato de que o poder público não conhece a juventude e seus anseios. E como a juventude muitas vezes não representa um grupo forte e organizado de poder, acaba se tornando vítima de arbitrariedades.

Esperamos que haja mobilização para tirar esse debate dessas trevas, de preconceito e desinformação, para que a juventude possa ter seu direito pleno de se divertir, nos espaços que escolhe.

12.3.11

De onde eu sou

São João da Mata - vista aérea

De onde eu sou, eu sei, apesar de ter vindo de muitos lugares. parece a sina de versador com a sacola nas costas. papel, caneta, coração na ponta do lápis.

cresci na barriga de uma mãe amorosa no sul das Minas dos Matos Gerais. A cidadezinha de São João da Mata, terra de índios Abatingueras, em constante litígio com bandeirantes paulistas, friagem de doer os ossos nas noites de inverno. Mas frio nenhum era páreo pras portas abertas, salas cheias de gente, onde o limite entre vizinhança e família nunca se fez certo, graças a boa hospitalidade mineira. Casa cheia, cozinha esquentando o resto do lar. Panelas cantando, tábuas batucando sob facas que cortam legumes e verduras, água de bica que cai na panela, ferve, cheira, apimenta, prova, canta, ri, chora, relembra. O mundo é cozinha boa.

Mas São João da Mata não tinha hospital. Vai pai, vai mãe, corre pr'o moleque nascer em Pouso Alegre, é logo ali. Passa avoando por Machado, cuidado com o radar. Balança as estrturas do Fiat147 zero bala, seu Oswaldo, que o moleque quer sair pra viver a vida. Nasce, e volta. Por que ele quer mesmo é ser sãojoanense, acordar e sentir cheiro de milho cozido, cural,paçoca, leitoa. Ouvir o Seu melado, velho sábio entoar canções ao violão, logo ali na sala. Corre, minha gente, que a família já pegou a estrada pra ver o molecote que nasceu.

- Cadê Anacharsis, Vadico?
-Ah, Dona Lezy, ele foi almoçar na casa do vizinho, mas quando estava voltando o folião convidou pra tomar uma pinga na parada da folia e ele topou. Abriu o apetite e o prefeito chamou pra almoçar na casa dele. Convite do prefeito, não se recusa.

Azar da leitoa que foi pra panela. E Vovô Rattes fazia sucesso nas ruas da pequena cidade, de casa em casa, não negava convite.

Tio Iriê quando chegou mal entrou em casa. Pai interpelou e foram afogar saudade em copo de gelada. Quatro horas depois os amigos retornam a residência, embebidos em felicidade. Eis que o Iriê saca da mala um jogo de vareta e inicia o desafio.

-O que é esse barulho? é chuva batendo na janela, Waninha?
-Nada, querido. É que essa hora a besourada sai da mata e bate na janela, preocupa não.

Zé Guto, meu padrinho, tio mais novo sente em São João da Mata sua grande liberdade. Com 18 anos, acompanhado do primo Wilsomar, que Deus o tenha, vai curtir os forrós e cortejar as mocinhas, voltar de madruga em estrada de terra, escura, com luz-pequena de pirilampo, quando muito lua cheia abençoada.

- Ô Wilsomar, você viu que eu peguei na mão daquela menina?
-Pois é, elas nem queriam que a gente fosse embora...

Um dia voltamos pra Juiz de Fora, onde pai e mãe viveram desde cedo. Eu nem era dono de mim. Mas tenho certeza que já tinha decidido que era juizforano do miolo, até o talo.

De São João da Mata ficaram as lembranças da casa ampla, da samambaia, da cozinha, das brincadeiras da sala, dos carinhos da ajudante Sandra, que cuidava como se eu fosse filho, do burburinho da rua onde crianças brincavam, da Folia de Reis que entrava em casa e fazia oração. Da Congada que passava e dos carreiros, que davam som a rua, com seus carros de boi.

Mas eu já havia decidido que era súdito da Princesa de Minas, Vam'bora que é hora.

Na Princesa de Minas, Juiz de Fora, Santo Antonio do Paraybuna, Manchester Mineira, era vida nova, vida velha, outros santos, outras festas.

Entra no carro com o Vô Rattes, vai no açougue. Hoje tem churrasco. Final de semana é dia de ir pra cidade alta. Brincar com primos, brincar de serra. Reviver o frio. Brincar com os primos e primas, pipa-papagio, casa de árvore, chão de terra.

E por ocasião de trabalho da Dona Wânia o molecote vai viver boa parte de suas horas do dia no Mariano procópio, brejeando o Paraibuna, margeando córrego, estourando dedo em rua calçada de pedra. Estudando em escolinha, ali mesmo. O molecote se sagra moleque de verdade. Da roça ao subúrbio, do matão à várzea. Cruza a avenida Rio Branco, vai almoçar na Vó Penha todo dia, ser cuidado pelas tias, e no final do dia ganhar beijo e abraço de mãe.

-Mãe, posso brincar no terreiro?
-Mas meu filho, eu sou sua vó, a sua mãe é a Wânia.
-Eu sei, vó. Mas é por que eu tenho duas mães.

E assim foi, e sempre será.

Eu vim de um monte de lugares. Pude até escolher de onde eu vim. Cabe a mim viver e morrer de amor por esses pedaços de mim, espalhados pela geografia intensa das Minas Gerais.

19.2.11

Toque de ira

frívola falsa-fala
em fogo é fardo é
foda.

rasga-corpo, em
seda, cama.
perna em cima,
braço embaixo;

[não respeita
nem velório]

toca en(m)torno
faz transtorno
rima com lábio-bo
ca]

resplandece-mão
que arranha, eno-
brece pés que pi-
sam em minha
verve.

17.2.11

Miguel e Luiza - IV


A NÉVOA tomava conta da casa. A luz era azulada, inconstante e era impossível discernir se era dia ou noite. Aparentava um estado inebriado e sentia como se fossem cinco da manhã, justamente naquela hora quando o dia ameaça raiar e você não consegue mais segurar o sono. Ainda estava bêbado, pensou com toda certeza. Caminhou pelo corredor e se deparou com uma estranha imagem: numa pequena poltrona, sentado de pernas cruzadas estava seu pai. Ele o observava com um ar de superioridade extremamente irritante. Tinha os cabelos esvoaçados, óculos de aro grosso e pretos que repousavam sobre o grande nariz. Levantou lentamente os olhos sem sequer mover a cabeça com tom de cumplicidade e repousando as mãos por sobre os joelhos suspirou.

- Você não aprende, hein, garoto? A voz roufenha irritava Miguel.

- O que você está fazendo aqui?

- Vigiando você, garoto.

- Eu já não te disse que não quero saber de você por aqui?

O velho sorriu e abaixou a cabeça. As costas pareciam protuberantes e pouco a pouco se tornaram trêmulas. Ele parecia estar rindo e em crescente revelava seu sentimento. As risadas tornaram-se gargalhadas cada vez mais altas e atordoantes. Miguel queria tapar os ouvido, mas estava fraco demais. As mãos não chegavam até lá. Sentia-se aflito e as pernas não respondiam mais. Não conseguia sair do lugar.

Até que acordou.

Murmurou timidamente pra si próprio:

- Puta que pariu de pesadelo.

Tinha as costas molhados e sentiu que estavam coladas no sofá de curvim branco de sua sala, pensou em levantar, mas foi persuadido pelas dores no corpo e pela preguiça. Já que restavam algumas horas até que João fosse lhe buscar preferiu permanecer onde estava, sentindo palpitar o coração assustado pelo pesadelo. “Ah, velho filho da puta, nem assim me deixa em paz”, praguejou em pensamento. Sentiu a aflição percorrer seu corpo e arrepiar os cabelos dos braços, suou frio novamente, e os olhos que ardiam pareciam enxergar turvo novamente. “É hora do santo remédio” pensou consigo.

Foi até a cozinha lamentando a existência. Abriu uma pequena caixa ao lado do purificador de água, e procurou entre a caixa de curativos, as Novalginas vencidas, os remédios Homeopáticos abandonados e entre as caixinhas amigas de Valium, seu Apraz.

- Aí está você, meu camaradinha! Deixa eu te engolir para o mundo não me engolir.

Miguel achava graça das infrutíferas tentativas de tratar sua ansiedade crônica. Já havia tentado de tudo: ioga, tantra, musicoterapia, terapia de grupo, arranjar um emprego decente, casar-se. Mas tudo era em vão. O bom e velho Apraz era seu melhor amigo. Remediar-se era um gesto mecânico. Valia mais pelo copo d’água do que pela droga. Sentia-se cínico, provocador, e isso acentuava ainda mais sua ansiedade. Era de fazer doer as costas e suar a nuca. Mas Miguel desaprendera viver sem isso. Encarava sua medicação com a frivolidade e resignação de quem fazia mais uma refeição.

Eram quatro da tarde e sentiu fome. Seu estomago parecia estar em descompasso com o intestino. Um pedia comida e o outro se queixava dos excessos da noite anterior. O que fazer? Viver era um constante exercício de contradizer o corpo, dizer não quando ele pede que diga sim. Fingir que não ouviu um clamor. Poderia abrir a geladeira e tentar fazer uma salada, beber um suco. Slow Food. Mas também podia ir até a padaria e servir-se de gramas e gramas de compostos de gordura trans, carboidratos, proteína animal. O cérebro agradece quando o estômago sofre.

Calçou os chinelos, vestiu uma blusa velha, com dois furos embaixo do braço esquerdo, ajeitou furtivamente o cabelo e rumou a padaria.