“Para isso a lua não era boa. Quem põe praça de cavalhadas, por desbarranco de estradas lamentas, desmancho empapado de chão, a chuva anda enxaguando? Convinha esperar regras d’água. ‘O Rio Paracatu está cheio...’ alguém disse. Mas Zé Bebelo atalhou: ‘O São Francisco é maior...’ Com ele tudo era assim, extravagável; e não queria conversas de cutilquê. Rompemos. Melava de chover baixo, mimelava.” (Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa)
[Sábado, dia 5 de dezembro]
Juiz de Fora padeceu em sol quente pelas últimas semanas. Porém resolveu presentear-nos com chuva gelada no final de semana. Isso tornou ainda mais complicada a missão de levantar da cama às cinco da manhã. Como já não tinha dormido o suficiente, não foi difícil. Por sorte resolvi levar uma blusa de manga comprida. Foi vital para garantir que não passasse frio na ida até BH. Cada vez mais me surpreendo com os motoristas. O que me levou até BH era praticamente um geek. No carro havia um GPS falante, no porta luva um PSP com inúmeros gigas de games. Ele me contou que em casa tinha um Play Station, mas que no fundo ele queria um X-Box. Diverti-me com o papo.
Cheguei com antecedência na Pampulha, por volta das nove da manhã. Fui tomar um extorsivo café: espresso, pão de queijo e um muffin de chocolate. Total: nove reais e quarenta centavos. Para passar o tempo fui a uma livraria/revistaria muito aconchegante situada no aeroporto. Resolvi comprar uma revista Trip. Há anos que não compro uma, desde que deixaram de vir com CDs. Na capa, a Trip Girl: Cléo Pires. Acho essa menina uma nova Leila Diniz, no que concerne a beleza, claro.
Vôo marcado para as onze horas, chuva caindo. Check-in feito. Vinte minutos antes resolvo ir para a sala de embarque e ao chegar lá descubro que o vôo das oito ainda nem havia saído. Resumo: previsão de atraso de duas horas e meia para meu embarque. A causa: aeroporto de Montes Claros fechado.
Aguardei pacientemente, assistindo pessoas se irritando e descontando a raiva nos funcionários da Trip. O tempo melhorou e podemos decolar uma hora antes do previsto. Quinze minutos tranqüilos de vôo. Inicia-se o serviço de bordo. Confesso: sou fã do sanduíche de pão sírio com catupiry e peito de peru da Trip. Faltavam apenas duas pessoas para serem servidas antes de mim, quando de repente, alerta luminoso para todos se sentarem, colocarem assentos na vertical e apertarem os cintos. Cinco minutos depois o aviso do comandante: devido a problemas meteorológicos suspenderam o serviço de bordo. Dancei no sanduba.
Desci em Montes Claros e depois de dez minutos lá estava meu motorista. Um cara muito gente fina. Mais um ótimo papo enquanto cruzávamos 230km através da BR-251 com muita chuva. A paisagem estava mais bonita. Porém cada vez menos buritizeiros e cada vez mais eucaliptos. No caminho contei 82 caminhões ultrapassados. Três deles tombados ao longo da estrada. Meu motorista falou que é normal. Essa movimentação se explica: a 251 dá acesso a 116, conhecida por Rio-Bahia.
Chegamos em Salinas por volta das cinco da tarde. Eu estava faminto e resolvi almoçar num local que já conhecia. Um simpático restaurante chamado Bacaninha. Meu prato predileto na casa é a “Picanha a Bacaninha”: três bifes de picanha, tropeiro, fritas e arroz. Maravilha!
Depois de um papo com colegas trabalho por telefone me hospedei e marquei com o motorista de nos reencontrarmos as nove para uma volta pela cidade. A chuva atrapalhou um pouco o movimento, mas a praça estava lotada para a exibição de um filme. Segundo o dono do hotel em que me hospedo, costuma chover em Salinas apenas 800mm por ano. Somente neste fim de semana já havia chovido isso.
Por fim, carro guardado, resolvemos tomar uma cervejinha e comer uma isca de filé de peixe. Batemos um bom papo e descobri algo que nunca imaginaria. O motorista me contou que em Montes Claros poucas pessoas conhecem Beto Guedes e menos pessoas ainda dão algum valor para o fato dele ser de lá. Ele se surpreendeu com meu fanatismo pelo cara. Ficou satisfeito.
Dormi as onze em ponto.
[Domingo, 6 de dezembro]
Acordei às seis e meia da manhã, tomei um banho revigorante, ajeitei todo material de trabalho e fui tomar café. Uma das coisas mais gostosas de Salinas é o queijo cozido. É próximo da mussarela, porém melhor. Comi feito um rei. As sete e vinte encontrei com o motorista que me levou ao pólo. Lá encontrei as tutoras presenciais e fomos organizar o espaço para aplicar as provas.
Fico cada dia mais impressionado com a força dessas pessoas. Essas mulheres do pólo se dedicam de forma incrível ao projeto. Algo encantador. Sem essas pessoas seria impossível fazer qualquer trabalho de qualidade.
Sou sempre bem recebido em Salinas. Sinto um carinho e respeito pelo trabalho que desenvolvemos. Um momento de renovação do amor pela educação.
Nossas alunas que vieram fazer prova vem de Salinas e de locais mais distantes, algumas percorrem até mesmo 90km para chegar ao pólo. Com a chuva a dificuldade fica ainda maior, já que às vezes é necessário atravessar rios, estradas de chão, e, diga-se de passagem, na maioria das vezes não existe transporte coletivo. Já ouvi história de alunas que fazem parte do trecho à cavalo e depois de barco.
Uma aluna, que estava grávida de quase nove meses na última vez que estive lá, e caminhava com dificuldade devido a barriga, agora trazia uma linda menina ao colo. Que sinal maravilhoso de persistência! Todos sabem que sou emotivo. Nessas horas quase me escondo para evitar derramar lágrimas por aí.
Tudo correu bem. Provas aplicadas, envelopes lacrados, abraços, beijos e despedidas. Creio que mais uma vez não fui suficientemente enfático na minha satisfação com o trabalho das tutoras presenciais. Ganhei uma garrafa de Salinas da Dri! Ela é ótima, nunca se esquece de mim...
Almoço no “Fofocas Bar e Restaurante”. Ponto forte de Salinas: comida boa por um preço justo. Churrasco maravilhoso! E Coca-Cola de 1 litro. Essa ainda não chegou em Juiz de Fora...
Infelizmente desta vez não tive tempo de comprar cachaças.
Pegamos estrada sem chuva e fizemos uma boa viagem. Falta de novidade: mais três caminhões tombados na estrada.
No aeroporto de Montes Claros fiz o check-in e fui para o restaurante, tomar uma Bohemia e assistir ao menos o primeiro tempo dos jogos finais do Brasileirão. Por um momento acreditei que o Flamengo ia entregar o título. Vibrei com o gol do Flu e baixei minha bola no empate do Coritiba.
O vôo para BH foi tranqüilo. Fazia sol quando decolamos e a vista estava linda. Finas camadas de nuvens imitavam a superfície do mar, enquanto o sol parecia acomodar-se para o poente.
Com Beto Guedes na cabeça e com aquela paisagem vista lá do alto me lembrei da música dele, com Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi:
Belo Horizonte,
Montes Claros, meu segredo
Marcado pelo som que vem do mato.
Mato horizontes
Fundos claros, contra o medo
E nada tenho a ver
Quero a palavra errada,
Quero a hora certa de chegar
E cheguei à BH (dessa vez comi o sanduba da Trip!). Descobri que o Flu se salvou e fiquei feliz. Meu motorista chegou e pegamos a estrada, desta vez com muita chuva. O papo descontraído ajudou o tempo passar. Paramos na Vaquinha da Nevada, comemos e batemos um papo gostoso com os funcionários.
Cheguei em Juiz de Fora por volta das onze da noite. Havia 37 horas que eu tinha saído de casa. Destas 37, passei 20 em Salinas, e 17 em trânsito. Voltarei à Salinas? Não sei, afinal não depende só de mim.
Sei que a cidade já faz parte da minha vida. E como diz Guimarães Rosa “mas quem sabe o que é viver? Viver é etcétera...”.
anseia a hipertensão, herança genética que limita as bebidinhas e tira-gostos e a vida abstêmica agrava a ansiedade quando o labor excede a flor da vitalidade
(porém como bom poeta evita dar-se ao luxo de respeitar recomendações médicas, filosóficas ou psicanalíticas)
quando chega, finda dia, exausto estende pés, pernas, coluna vertebral no sofá a entornar pensamentos encontra refúgio na amada : e isso basta!
serve-se de leituras pouco ortodoxas discos pouco conhecidos, exagera no café sorve simpatia por seriados estadunidenses e diverte-se ao cuidar de suas plantas
*publicado dia 20/10, editado dia 22/10, por motivos excusos e impublicáveis.
15.10.09
um dia eu saía do Mário Helênio emocionado com um título do Galo Carijó, e eis que ó: um maluco com um sofá na cabeça. quem me alertou foi meu camarada Gili.
poesia é algo controverso pra não dizer contra-o-verso algo maldito, feito doce doçura poesia é um proibidão de fuzil na mão, é o erro dês- elegante, tipo moça que queda de sal-to-al-to ao descer a escada. essa poesia, essa menina, bem vestida de esmaltes vermelhos, que adora se olhar no espelho, esse remédio pra vaidades e promessas vãs essa tormenta pr’os vagabas praianos de cabelo parafinado essa desilusão cruel aos doutos titulados, esse eterno ping pong de oswald e mário. esta poesia que só vale a pena quando me adula, me louva faz de suas linhas as minhas, faz romper com toda força esta barreira esta arbitrária trincheira entre arte e vida.
devo fazer versos inexoráveis inextínguiveis? ou deveria assinar o branco do papel com marcas de meus amores
devo soar um poeta torpe? ou um poeta soez? ser sossobro rude, ou esperança delicada?
a despeito das contendas devo rumar a um norte ao menos [a um norte] que não seja movimento que a despeito, de ger(ações) soe assombro, susto, sopro bote, pó, que eleve ou não leve nada a lugar nenhum
mas que seja surpresa onde reside o sustentáculo poético de persistência da linguagem, sim
E então deus (assim com letra minúscula) mediante a minha aflição duradoura em saber como seria eu em forma de mulher resolveu me acalentar a alma e permitir que tivesse essa visão esdrúxula. Mas não sem antes me interrogar, afinal, deus é Deus. Ou seria, Deus é deus? Mas enfim, caro leitor, o homem, ou sei lá o que seria, me questionou com um olhar desconfiado: afinal por que tu quer ver como seria você, simetricamente, caso fosse mulher? Quer ter a experiência de alteridade máxima no gênero? Quer sentir a sensação de encontrar a alma gêmea de fato? E eu timidamente de frente ao todo poderoso joguei aberto ao máximo e disse que nada de grandioso movia minha curiosidade estranha. Eu estava até satisfeito com minha vida, minha auto-estima era algo razoavelmente resignada. Quando eu era magro demais conheci mulheres que achavam isso um charme e aproveitava disto para praticar esportes. Quando resolvi deixar a barba por desleixo, eis que vem os Los Hermanos e as meninas passaram a achar isso um charme. Quando engordei e uma barriga aqui nasceu me disseram com propriedade que barriga tanquinho era over, cafona. E eu então, ó deus que me interpela, sou muito feliz do jeito que sou. E o que me infelicita eu transformo em poesia e fica todo mundo achando lindo. Mas se tem algo que me deixa inseguro é que: se eu tivesse nascido mulher, como eu seria? Daria tudo pra ter a resposta a esse frívolo questionamento. Seria eu uma graça? Uma mulher decidida? Livre? E mais ainda, faria sucesso com os homens? E o deus, todo bonzão, disse que me concederia este desejo por alguns minutos e que eu agüentasse as conseqüências. E num passe de mágica (afinal como haveria de ser uma coisa de deus?) eis que repousa na minha frente uma garota de 26 anos. A primeira vista não me vi ali. Ela me olhou com cara desconfiada como se quisesse entender o que tanto eu olhava. Se vestia bem, melhor do que. Os cabelos eram estranhos. Fiquei injuriado que minha similar não tinha um nariz de respeito como tem essa minha raça. Eu tentei explica-la o que estava acontecendo, disse que ela precisava participar intensamente da minha experiência para o bem da minha humanidade e que eu queria ter a sensação de dar um abraço em mim mesmo, na versão feminina. No fundo eu queria era saber se eu cheirava bem. E, caro leitor, eu lhe digo que o perfume era bom. Apesar do abraço não nos demos bem. Saímos para beber uma cerveja e a única coisa em que concordamos: a pinga era algo supremo. Eu dormi na mesa depois da quinta dose e ela parecia estar firme, e descobri: minha versão feminina não devia ter insônia, afinal esta maldita dificuldade de dormir me mata e me faz ter sono depois de beber e às vezes provoca amnésias horríveis. Ela comeu meu chouriço e eu achei isso terminantemente uma péssima semelhança já que eu achei um dia que era a única pessoa do mundo capaz de matar a fome comendo um prato de chouriço apimentado. Por fim depois de bebermos tanto fomos pra casa ouvir discos de vinil e eu achei que pudesse até rolar um clima comigo mesmo, mas a sensação era horrível. Ela riu de mim e disse que eu era um neurótico e me permitiu até sentir sua textura corporal e eu até me achei gostosinha. Antes de acabar o LP Clube da Esquina 2, o deus tão cruel, interrompeu a experiência e me levou eu mesmo de lá, se é que o leitor me entende. Antes do chefe partir agradeci e disse que estava satisfeito, mas que gostaria de pedir qualquer dia desses que ele me permitisse uma experiência nova. E o deus ranzinza me mandou calar a boca e foi embora resmungando alegando que tinha coisa mais importante pra fazer, como conseguir mais seguidores no twitter e assistir Usain Bolt desafiar as regras criadas por ele.