8.12.09

De volta à Salinas



“Para isso a lua não era boa. Quem põe praça de cavalhadas, por desbarranco de estradas lamentas, desmancho empapado de chão, a chuva anda enxaguando? Convinha esperar regras d’água. ‘O Rio Paracatu está cheio...’ alguém disse. Mas Zé Bebelo atalhou: ‘O São Francisco é maior...’ Com ele tudo era assim, extravagável; e não queria conversas de cutilquê. Rompemos. Melava de chover baixo, mimelava.” (Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa)


[Sábado, dia 5 de dezembro]


Juiz de Fora padeceu em sol quente pelas últimas semanas. Porém resolveu presentear-nos com chuva gelada no final de semana. Isso tornou ainda mais complicada a missão de levantar da cama às cinco da manhã. Como já não tinha dormido o suficiente, não foi difícil. Por sorte resolvi levar uma blusa de manga comprida. Foi vital para garantir que não passasse frio na ida até BH. Cada vez mais me surpreendo com os motoristas. O que me levou até BH era praticamente um geek. No carro havia um GPS falante, no porta luva um PSP com inúmeros gigas de games. Ele me contou que em casa tinha um Play Station, mas que no fundo ele queria um X-Box. Diverti-me com o papo.

Cheguei com antecedência na Pampulha, por volta das nove da manhã. Fui tomar um extorsivo café: espresso, pão de queijo e um muffin de chocolate. Total: nove reais e quarenta centavos. Para passar o tempo fui a uma livraria/revistaria muito aconchegante situada no aeroporto. Resolvi comprar uma revista Trip. Há anos que não compro uma, desde que deixaram de vir com CDs. Na capa, a Trip Girl: Cléo Pires. Acho essa menina uma nova Leila Diniz, no que concerne a beleza, claro.


Vôo marcado para as onze horas, chuva caindo. Check-in feito. Vinte minutos antes resolvo ir para a sala de embarque e ao chegar lá descubro que o vôo das oito ainda nem havia saído. Resumo: previsão de atraso de duas horas e meia para meu embarque. A causa: aeroporto de Montes Claros fechado.

Aguardei pacientemente, assistindo pessoas se irritando e descontando a raiva nos funcionários da Trip. O tempo melhorou e podemos decolar uma hora antes do previsto. Quinze minutos tranqüilos de vôo. Inicia-se o serviço de bordo. Confesso: sou fã do sanduíche de pão sírio com catupiry e peito de peru da Trip. Faltavam apenas duas pessoas para serem servidas antes de mim, quando de repente, alerta luminoso para todos se sentarem, colocarem assentos na vertical e apertarem os cintos. Cinco minutos depois o aviso do comandante: devido a problemas meteorológicos suspenderam o serviço de bordo. Dancei no sanduba.


Desci em Montes Claros e depois de dez minutos lá estava meu motorista. Um cara muito gente fina. Mais um ótimo papo enquanto cruzávamos 230km através da BR-251 com muita chuva. A paisagem estava mais bonita. Porém cada vez menos buritizeiros e cada vez mais eucaliptos. No caminho contei 82 caminhões ultrapassados. Três deles tombados ao longo da estrada. Meu motorista falou que é normal. Essa movimentação se explica: a 251 dá acesso a 116, conhecida por Rio-Bahia.

Chegamos em Salinas por volta das cinco da tarde. Eu estava faminto e resolvi almoçar num local que já conhecia. Um simpático restaurante chamado Bacaninha. Meu prato predileto na casa é a “Picanha a Bacaninha”: três bifes de picanha, tropeiro, fritas e arroz. Maravilha!

Depois de um papo com colegas trabalho por telefone me hospedei e marquei com o motorista de nos reencontrarmos as nove para uma volta pela cidade. A chuva atrapalhou um pouco o movimento, mas a praça estava lotada para a exibição de um filme. Segundo o dono do hotel em que me hospedo, costuma chover em Salinas apenas 800mm por ano. Somente neste fim de semana já havia chovido isso.

Por fim, carro guardado, resolvemos tomar uma cervejinha e comer uma isca de filé de peixe. Batemos um bom papo e descobri algo que nunca imaginaria. O motorista me contou que em Montes Claros poucas pessoas conhecem Beto Guedes e menos pessoas ainda dão algum valor para o fato dele ser de lá. Ele se surpreendeu com meu fanatismo pelo cara. Ficou satisfeito.

Dormi as onze em ponto.


[Domingo, 6 de dezembro]


Acordei às seis e meia da manhã, tomei um banho revigorante, ajeitei todo material de trabalho e fui tomar café. Uma das coisas mais gostosas de Salinas é o queijo cozido. É próximo da mussarela, porém melhor. Comi feito um rei. As sete e vinte encontrei com o motorista que me levou ao pólo. Lá encontrei as tutoras presenciais e fomos organizar o espaço para aplicar as provas.

Fico cada dia mais impressionado com a força dessas pessoas. Essas mulheres do pólo se dedicam de forma incrível ao projeto. Algo encantador. Sem essas pessoas seria impossível fazer qualquer trabalho de qualidade.

Sou sempre bem recebido em Salinas. Sinto um carinho e respeito pelo trabalho que desenvolvemos. Um momento de renovação do amor pela educação.

Nossas alunas que vieram fazer prova vem de Salinas e de locais mais distantes, algumas percorrem até mesmo 90km para chegar ao pólo. Com a chuva a dificuldade fica ainda maior, já que às vezes é necessário atravessar rios, estradas de chão, e, diga-se de passagem, na maioria das vezes não existe transporte coletivo. Já ouvi história de alunas que fazem parte do trecho à cavalo e depois de barco.

Uma aluna, que estava grávida de quase nove meses na última vez que estive lá, e caminhava com dificuldade devido a barriga, agora trazia uma linda menina ao colo. Que sinal maravilhoso de persistência! Todos sabem que sou emotivo. Nessas horas quase me escondo para evitar derramar lágrimas por aí.


Tudo correu bem. Provas aplicadas, envelopes lacrados, abraços, beijos e despedidas. Creio que mais uma vez não fui suficientemente enfático na minha satisfação com o trabalho das tutoras presenciais. Ganhei uma garrafa de Salinas da Dri! Ela é ótima, nunca se esquece de mim...

Almoço no “Fofocas Bar e Restaurante”. Ponto forte de Salinas: comida boa por um preço justo. Churrasco maravilhoso! E Coca-Cola de 1 litro. Essa ainda não chegou em Juiz de Fora...

Infelizmente desta vez não tive tempo de comprar cachaças.

Pegamos estrada sem chuva e fizemos uma boa viagem. Falta de novidade: mais três caminhões tombados na estrada.


No aeroporto de Montes Claros fiz o check-in e fui para o restaurante, tomar uma Bohemia e assistir ao menos o primeiro tempo dos jogos finais do Brasileirão. Por um momento acreditei que o Flamengo ia entregar o título. Vibrei com o gol do Flu e baixei minha bola no empate do Coritiba.

O vôo para BH foi tranqüilo. Fazia sol quando decolamos e a vista estava linda. Finas camadas de nuvens imitavam a superfície do mar, enquanto o sol parecia acomodar-se para o poente.

Com Beto Guedes na cabeça e com aquela paisagem vista lá do alto me lembrei da música dele, com Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi:


Belo Horizonte,

Montes Claros, meu segredo

Marcado pelo som que vem do mato.

Mato horizontes

Fundos claros, contra o medo

E nada tenho a ver

Quero a palavra errada,

Quero a hora certa de chegar


E cheguei à BH (dessa vez comi o sanduba da Trip!). Descobri que o Flu se salvou e fiquei feliz. Meu motorista chegou e pegamos a estrada, desta vez com muita chuva. O papo descontraído ajudou o tempo passar. Paramos na Vaquinha da Nevada, comemos e batemos um papo gostoso com os funcionários.

Cheguei em Juiz de Fora por volta das onze da noite. Havia 37 horas que eu tinha saído de casa. Destas 37, passei 20 em Salinas, e 17 em trânsito. Voltarei à Salinas? Não sei, afinal não depende só de mim.


Sei que a cidade já faz parte da minha vida. E como diz Guimarães Rosa “mas quem sabe o que é viver? Viver é etcétera...”.

1.12.09

é tudo nosso

ECO PERFORMANCES POÉTICAS

Nesta quinta-feira, as 20:30, no Mezcla, entrada franca.
Com: Tiago Rattes, Anderson Pires e André Capilé.


e tem mais:

25.11.09

Por ordem de data

Grandes acontecimentos...

Neste dia 27 em Barra Mansa, no SESC, nossos queridos André Capilé e Carol Barreto lançam o "Dois, não pares":




No dia 1 de dezembro:



Música boa no show da MATILDA

No Teatro do Pró-Música, 21h.

Juiz de Fora-MG

03 de Dezembro

ECO Performances Poéticas

última edição do ano no Mezcla, as 20:30, entrada franca

em Juiz de Fora - MG

convidados confirmados:

Gilvan Procópio Ribeiro

apresentando:"Ninho de Mafagafos"

uma biografia inventada e não autorizada

OsTrêsPatetas

Anderson Pires, Tiago Rattes, André Capilé

Discolagem: Pedro Paiva

14.11.09

mais duas

Pó Compacto

reboca com galhardia a face

outrora não se usava no verão

esplendida geratriz do disfarce

mística musa do senão

ao imiscuir-se de sua beleza,

tenaz provoca sentidos.

desfere ilídimos olhares,

para desespero do marido.



Lápis de olho

desvia furtivamente o verdadeiro olhar

e guia alheios a perceber o que bem entende

arquiteta góticas, patricinhas, descoladas

desenha humores, sintomas, e preces.

constrói cena pré-noite; como

é bela, a uma, aventurar-se

riscando as vistas,

em tragédias, amores não consumados

dias de emoção

provoca lágrimas negras, e

torna-se elemento delicado

ainda que manchado ao

dia seguinte.

3.11.09

Top Coat

fosco a fossa, foste luz
apagaria teu sentido

torço tosco leito enrosca
teus pés na minha boca

sacia vontades extremas
no âmago, no imo esteiro

beijo e beijo escantilhado
procurando o brilho leito

mas tenso pescoço não relaxa
como a leve mão não se encosta
reflete lépido tarado
como a amada é casca grossa

crédito da foto, clique aqui.

29.10.09

inveja boa

lustra moçoilas lúbricas

adorna redundante

a mão mais bela, ó

que bela seria


torna-se deusa única

de pernas abundantes

ama-se na banheira, só

provoca pantofobia


o rosto rubro.

provoca a queda,

inveja “vermelhecer”

açodada a excitação


quando do traslado

da doce filha de Eva

manda se foder

a costela de Adão

20.10.09

este, aquele, ou esse poeta

anseia a hipertensão, herança genética
que limita as bebidinhas e tira-gostos
e a vida abstêmica agrava a ansiedade
quando o labor excede a flor da vitalidade

(porém como bom poeta evita dar-se
ao luxo de respeitar recomendações
médicas, filosóficas ou psicanalíticas)

quando chega, finda dia, exausto
estende pés, pernas, coluna vertebral
no sofá a entornar pensamentos
encontra refúgio na amada
: e isso basta!

serve-se de leituras pouco ortodoxas
discos pouco conhecidos, exagera no café
sorve simpatia por seriados estadunidenses
e diverte-se ao cuidar de suas plantas


*publicado dia 20/10, editado dia 22/10, por motivos excusos e impublicáveis.

15.10.09

um dia eu saía do Mário Helênio
emocionado com um título do Galo Carijó,
e eis que ó:
um maluco com um sofá na cabeça.
quem me alertou foi meu camarada Gili.

Meu Galo Carijó é Psicodélico.


1.10.09

ECO - Performances Poéticas

Eco de outubro, com os convidados:

DAYSI AGUINAGA

LUCAS SOARES

LARISSA ANDRIOLI

JULIO POLIDORO


Segundo tempo: microfone aberto.

01 DE OUTUBRO, ESPAÇO MEZCLA as 20h
(Entrada Franca)

24.9.09

ping pong

poesia é algo controverso
pra não dizer contra-o-verso
algo maldito, feito doce
doçura
poesia é um proibidão
de fuzil na mão, é o erro dês-
elegante, tipo moça que
queda de sal-to-al-to
ao descer a escada. essa poesia,
essa menina, bem vestida
de esmaltes vermelhos, que adora
se olhar no espelho, esse remédio
pra vaidades e promessas vãs
essa tormenta pr’os vagabas
praianos de cabelo parafinado
essa desilusão cruel aos doutos
titulados, esse eterno
ping
pong
de oswald e mário.
esta poesia que só vale a pena
quando me adula, me louva
faz de suas linhas as
minhas, faz romper
com toda força esta barreira
esta arbitrária trincheira
entre arte e
vida.

12.9.09

Dúvida

Ao André Capilé

devo fazer versos inexoráveis
inextínguiveis? ou deveria
assinar o branco do papel
com marcas de meus amores

devo soar um poeta torpe?
ou um poeta soez? ser sossobro
rude, ou esperança delicada?

a despeito das contendas
devo rumar a um norte
ao menos [a um norte]
que não seja movimento
que a despeito, de ger(ações)
soe assombro, susto, sopro
bote, pó, que eleve
ou não leve
nada a lugar nenhum

mas que seja surpresa
onde reside o sustentáculo poético
de persistência da linguagem, sim

a surpresa

9.9.09

uma boa para essa sexta

Lançamento do Livro:
Mário e Oswald: Uma história privada do modernismo

de Anderson Pires da Silva.
Sexta feira 11 de setembro 19hs
na Casa de cultura Av Rio Branco,3372

2.9.09

ECO, minha gente!

Todos ao Mezcla nesta quinta!


30.8.09

eu, deus, e eu.

E então deus (assim com letra minúscula) mediante a minha aflição duradoura em saber como seria eu em forma de mulher resolveu me acalentar a alma e permitir que tivesse essa visão esdrúxula. Mas não sem antes me interrogar, afinal, deus é Deus. Ou seria, Deus é deus? Mas enfim, caro leitor, o homem, ou sei lá o que seria, me questionou com um olhar desconfiado: afinal por que tu quer ver como seria você, simetricamente, caso fosse mulher? Quer ter a experiência de alteridade máxima no gênero? Quer sentir a sensação de encontrar a alma gêmea de fato? E eu timidamente de frente ao todo poderoso joguei aberto ao máximo e disse que nada de grandioso movia minha curiosidade estranha. Eu estava até satisfeito com minha vida, minha auto-estima era algo razoavelmente resignada. Quando eu era magro demais conheci mulheres que achavam isso um charme e aproveitava disto para praticar esportes. Quando resolvi deixar a barba por desleixo, eis que vem os Los Hermanos e as meninas passaram a achar isso um charme. Quando engordei e uma barriga aqui nasceu me disseram com propriedade que barriga tanquinho era over, cafona. E eu então, ó deus que me interpela, sou muito feliz do jeito que sou. E o que me infelicita eu transformo em poesia e fica todo mundo achando lindo. Mas se tem algo que me deixa inseguro é que: se eu tivesse nascido mulher, como eu seria? Daria tudo pra ter a resposta a esse frívolo questionamento. Seria eu uma graça? Uma mulher decidida? Livre? E mais ainda, faria sucesso com os homens? E o deus, todo bonzão, disse que me concederia este desejo por alguns minutos e que eu agüentasse as conseqüências. E num passe de mágica (afinal como haveria de ser uma coisa de deus?) eis que repousa na minha frente uma garota de 26 anos. A primeira vista não me vi ali. Ela me olhou com cara desconfiada como se quisesse entender o que tanto eu olhava. Se vestia bem, melhor do que. Os cabelos eram estranhos. Fiquei injuriado que minha similar não tinha um nariz de respeito como tem essa minha raça. Eu tentei explica-la o que estava acontecendo, disse que ela precisava participar intensamente da minha experiência para o bem da minha humanidade e que eu queria ter a sensação de dar um abraço em mim mesmo, na versão feminina. No fundo eu queria era saber se eu cheirava bem. E, caro leitor, eu lhe digo que o perfume era bom. Apesar do abraço não nos demos bem. Saímos para beber uma cerveja e a única coisa em que concordamos: a pinga era algo supremo. Eu dormi na mesa depois da quinta dose e ela parecia estar firme, e descobri: minha versão feminina não devia ter insônia, afinal esta maldita dificuldade de dormir me mata e me faz ter sono depois de beber e às vezes provoca amnésias horríveis. Ela comeu meu chouriço e eu achei isso terminantemente uma péssima semelhança já que eu achei um dia que era a única pessoa do mundo capaz de matar a fome comendo um prato de chouriço apimentado. Por fim depois de bebermos tanto fomos pra casa ouvir discos de vinil e eu achei que pudesse até rolar um clima comigo mesmo, mas a sensação era horrível. Ela riu de mim e disse que eu era um neurótico e me permitiu até sentir sua textura corporal e eu até me achei gostosinha. Antes de acabar o LP Clube da Esquina 2, o deus tão cruel, interrompeu a experiência e me levou eu mesmo de lá, se é que o leitor me entende. Antes do chefe partir agradeci e disse que estava satisfeito, mas que gostaria de pedir qualquer dia desses que ele me permitisse uma experiência nova. E o deus ranzinza me mandou calar a boca e foi embora resmungando alegando que tinha coisa mais importante pra fazer, como conseguir mais seguidores no twitter e assistir Usain Bolt desafiar as regras criadas por ele.

24.8.09

sutilezas safadas*

primeiro ato, soa a campanhia (eu tremo)
burt bacharach's geatest hits
desliza insolentemente na vitrola

segundo ato, [onde está o abridor?]
eu bebo.
eu bebo...
mas não desgrudo os olhos do teu an-
dar.
(desde sempre estive curioso pra ver se teus pés
são isso tudo mesmo
: e são)

terceiro ato, eu descobri a ver-
dade
cinco vezes mais cicatrizes neste corpo
que eu imaginava, mas gostei

quarto ato
eu paro e escrevo os secretos versos
que peço que não conte a ninguém:

menina linda
que luta
menina branca
que dança
mire teus olhos
neste pedaço de mim.




*este título eu adotei na marotagem, na mão grande, afinal quem sugeriu foi o poeta André Capilé, e eu gostei e agora é meu, perdeu preíbói.

8.8.09

café da manhã

os pés brancos translúcidos de
falanges falanginhas falangetas
marcadas pela magreza elegante
que roçavam pela manhã no meu

pedindo um café da manhã,
mas não, é cedo pra sair debaixo
do edredom, é tarde pra terminar nosso
estudo anatômico acerca da veias azuis que
cismam
em transparecer por este corpo
branco, ainda é cedo.

pela tarde peça torradas ovos quentes
leite morno
café
peça e implore pra que joguemos toda esta
joça pela janela
e que termine tudo em coito louco
pr’aqueu prove a ti
que teus olhos me excitam mais
que as marcas deixadas pelas tiras
da sandália de salto alto.

4.8.09

16.7.09

ando escrevendo uma tese (dissertação?) de mestrado. tá tudo atravan -
cado: vida dura
mas eu
vol-
to.

7.7.09

sou igualzinho a você

eu não li Borges
eu não fui na flip
eu não gosto de cineastas
eu não sou junkie
eu não sou anti-acadêmico
eu não gosto de vodka
eu não gosto de ramones
eu não conheço HQ's
eu não gosto de jovem guarda
eu não gosto de kitsch
eu não louvo chico buarque

eu gosto de azeite borges
eu sei dar ollie-flip
eu amo cinema
eu até me dou bem com junkies
eu odeio normas abnt
eu gosto de pinga
eu amo clash
eu adoro chargistas
eu não gosto de jovem guarda
eu adoro vintage
eu ouço chico buarque

dizem que tô perdendo tempo na vida
mas sou igualzinho a você

26.6.09

sambamar

sambamar
samba no mar (alguém já cantou)
samba pra amar
no armar (do corpo quente)
no armário (da vaidade)
armado peito forte
samba na cela,
em sesta
na escolta
na selva
no colo
no escopo
samba lá
samba nela, faz dela
passista, assista a miséria
que ela faz com os pés
na passarela e a passar
ela não resiste ao passar
por ela, toda assim
sambamar
samba pra amar
samba assim

17.6.09

Juiz de Fora é a cidade mineira menos barroca.
Aqui a mineiridade não é clichê. Nem blasé.
Não temos a procissão. Só a possessão.

Tupi or not Tupi, that’s the team.
Ou fantasma do mineirão. E as pesquisas oficiosas comprovam: cresce o número de torcedores de times da capital do estado, reduz o de seguidores das equipes da capital do império.

Aqui o tira-gosto nos butecos é o melhor do estado, quiçá do planetinha. Haja estômago.

Letras. Não citarei Murilo Mendes, Nem Affonso Romano. Nava, filho adotivo do Caminho Novo, é quem melhor descreveu tudo isto. E um pouco mais.

Basta assistir TV e desencarnar do corpo tendencioso e verá. As pessoas daqui tem um irrmediável sotaque mineiro. Mas é preciso assistir TV.

Seria covardia falar de música. E ponto final.

2.6.09

Deixa eu te contar_( à memória de Ana Cristina César)

deixa eu te contar que eu sinto saudade
deixa eu te saudar na subida pr'o quarto
de nós dois. deixa eu resguardar teu parto
que eu transo um amanhã pra nós dois
deixa
deixa pra depois
não esqueça de teu comprimidinho
a vida é assim, felicidade em caixas
não rasga
minhas cartas
que quando, um dia,
assim como alguém que nada quer,
eu for
de velhice, ou de airbus
você se lembrará pra sempre de mim

Ana Cristina César

28.5.09

novidade

estética est ética
seria? ao menos
eu saberia

e a arte vai brincado pelo mundo
de ser rock'n roll
ah se tudo fosse rock'n roll!
era só um chacoalhar de ossos
ah se tudo fosse van gogh!
era todo mundo grogue
arrancando as orelhinhas
mas não
tem muita pedra neste mundo
muita pedra pra ser quebrada
"corra camarada
o velho mundo está atrás de nós"
o homem que come o pão de ló da arte
tem que gotejar a pimenta da política
no fiofó

27.5.09

ando devagar (nunca tive pressa)
o blog voltará.
juro.

16.5.09

Salinas II

06:00 chega de dormir. a claridade não ajuda e o barulho do ar condicionado do vizinho só piora.
banho nesta terra é bom demais.
7:00 é hora de tomar um café. e grata surpresa: professora helena motta, aqui está, por conta da UAB. batemos um papo. café, pão de queijo, bolo de mandioca. adeus dieta.
07:30 o motorista nos busca e vou rumo ao pólo. de encontro dos alunos e alunas...
a oficina parece ter funcionado. ganhei um queijo, um requeijão e uma cachaça. eles souberam me agradar.

ao meio dia me despeço e vou almoçar. aqui a comida é pesada. todo cuidado é pouco. mas que é uma delícia é. tenho uma sensação de que a poeira aqui é coisa séria. antes de ir ao restaurante passei na feira. impressionante. todo tipo de coisa se vende. frutas, legumes, grãos. e carne. muuuitas carne. eu queria um chapéu de palha. mas tava com fome. fui embora.
almocei num restaurante chamado FOFOCA'S. muito bom.
13:20 me sentei na cachaçaria Artista e bati um papo. levei cachaças, claro.

Salinas tem um cheiro bom. Um ar diferente. um dia ainda descubro o que é.
por hora, converso via msn com meu amor, coisa boa!

15.5.09

Salinas I



5:12
da matina, um motorista gente boníssima
passa lá em casa e seguimos em frente, pra
buscar o resto da moçada, turma de gente fina
elegante e sincera.
5:40 estávamos rumo a capital das minas
dos matos gerais e conversamos sobre música
pernambuco e muito cinema, e que beleza
despejamo-nos em pampulha
às 9:40
check-in chequinho despacha a mala que pesa 9,9kg
no aeroporto uma menina maquiada distribui panfletos
alerta sobre a gripe suína com um baita sorrisão no rosto
10:30 rumo a pista, o detector de metais cisma com minha cara
(na verdade com meu cinto)
muita poeira sobrevoa o asfalto quente da cabeceira
e às 10:45 tamo junto e misturado com as nuvens
rumo a Montes Claros
vejo lá de cima o mineirão, a lagoa e nada mais
11:47 cirurgicamente como havia dito o piloto o art-cento e alguma coisa da Trip
treme todo até descer na pista de MOC
e começa aí a cruzada pelas veredas dste Grande Sertão
Meio dia!!!!! E rasgamos a Bê-érre-dois-cinco-um rumo a Salinas
e passamos por Bocaina, Buritizais lindos, siriemas, carcaças
poeira, vidas secas. o céu é lindo
14:10 eis Salinas. pedacinho de nordeste em Minas. ou vice-versa
hotelzinho, almoço num restaurante muito bom que o nome já define: Bakaninha
as 15 e cacetada a bola da vez é comprar cachaça: beija flor
aqui uma Anísio Santiago pode sair por 170 reais. sim! verdade!(em JF a garrafa chega a 300)
18:00 visita ao pólo me faz sentir que eu amo mesmo é educar e fazer parte disso tudo
e escrever me dá saudade de Ceci.

amanhã eu ralo. e depois volto.

13.5.09

O Rio

o Rio me ama, me desanda
me ama na cama, no drama
da bala perdida, me ama
no anagrama
de ama, que poder ser Mam
mas no Rio nada consta
apenas o anadrama
que sorve jovens em cada
grama
o Rio me grama, em cada
Posto 9, em cada Lapa
em cada Beco das Garrafas
em cada Travessa,
o Rio me atravessa
a alma nas Laranjeiras
me sorve nas luzes do
Dona Marta, sim senhora
o Rio me perde na hora
da cabana, de Copa
o Rio me afoga nos biquinis
na areia, no mosquito
no Rio, se sujar eu apito
me guardo na lata
me faço de aflito
o Rio me ama nos braços
da mulher que passa
na dura do guarda
o Rio está lá
a duzentos quilômetros
de segurança que me
separam de toda essa
beleza.

6.5.09

ECO PERFORMANCES POÉTICAS

Nesta quinta-feira, dia 7 de maio, no Mezcla, as 20h, entrada franca.

Convidados:
Rafael Miranda
Dudu Costa
Luiz Fernando priamo
Dois (não pares)
videos do Inhamis


vê se aparece!

20.4.09

dorzinha

me deixa só com
minha dor no peito
que uma dorzinha é
alegria inconstante
de quem se afoga
em excessos

teus cuidados amplos
reduzem minha capacidade
de abraçar-te

e eu fico só de longe
vendo você ir embora

11.4.09

semana santa

semana santa
de santa nada tem

fica todo mundo
querendo bolinar alguém

e eu cansado ressaqueado
fico tentando dormir
enquanto toca Gal Costa
na vitrola do vizinho ao lado

10.4.09

Mini-doc Eco, by Inhamis Filmes

minha menina dorme
conserva em sono
o doce gosto do bolo de queijo
com goiabada

e eu clamo a deus
que a vida tenha sempre
essa carinha feliz
da minha menina dormindo

6.4.09

pesadelo


às duas da tarde a cidade parecia estar morta
ou talvez meio moribunda
incompleta, só se respirava a poeira
das casas demolidas para se fazer mais sombra
no centro da cidade, e um milhão de carros
assobiavam como um comboio surdo

em silêncio a multidão
passeava e não se olhava
numa espécie de rito alucinado de indiferença

a cidade morreu
ou está insone?

40 graus de calor desumano assolam
a cidade indiferente que percorre as ruas
desnudas
entre ambulantes
numa espécie de bailado cheio de catárse

velhos brancos papeiam a conservação do
estado das coisas e tomam seu café
num papo idiota
que reflete
e repete a mesma história eterna

dentro dos apartamentos a televisão
mata o tesão
em ritos sumários de execução dos casais
perdidos iludidos babando o ódio da caretice
sem fim

o sono vira refém

são duas horas da madrugada
na cidade poesia onde os fantasmas
são vivos decadentes decanos assustados
prefeitos presos pobres colunistas
doces desempresários mal educados
chiques antiquados dotados de opinião

abro a janela e o ar da noite é temperado
com a surpresa onírica que
o céu da cidade não tem mais lua
os bebâdos não tem mais a rua
os eternos felizes perderam
os bancos das praças
os abraços sinceros
os sorrisos docemente exagerados
e não mais vagam
nem divagam pelas esquinas
ou butecos abençoados
(que aliás estão fechados)

lá no alto, no lugar da lua, uma noite em branco
indica que roubaram nossa esperança
e todos calados roncam
e roçam
e rolam
nos lençóis da indiferença

são seis horas da manhã
os olhos cheios de areia denunciam
a estranha noite
e a claridade ofuscante faz ainda mais
confudir se tudo foi realidade
ou pesadelo

e os poucos que acordaram
fingem que nada aconteceu.

21.3.09

radinho

não desligue o rádio zumzum
a anteninha dá choque
mas não me choca zy12 90 megahertz

nosso amor é AM
liga e pede a música
primeiro lugar nas paradas


19.3.09

s/ título_tiagorattes.ponto
achaste um jeito de me enganar. eu me surpreendi e encarei de frente o desafio de me tornar um novo homem, sem vícios, sem virtudes. esse talvez seja o grande homem do século xxi. um excepcional gerente das contas em dia de seu lar. vai haver futuro que a pena capital vai ser cortar gargantas de quem atrasar a mensalidade da academia de ginástica. comerei daqui pra frente frangos grelhados, coca cola zero. caráter zero virgula cinco. eu sei que a azia se mede de acordo com o susto. um soneto é indecifrável na medida que entorta palavras rubras e sangrentas. é por isso que ma humanidade vai se dividir entre aqueles que nunca escreveram um soneto, e aqueles que morreram tentando fazer algo parecido com Vinicius de Moraes ou Shakespeare. a humanidade perece por que desaprendeu a usar o corpo pra algo mais interessante.
cantei mil versos de flor
e joguei pra ti os espinhos
com a lingua pois na pressa
não mais esqueço que poesia
falada encantada
é voz
e voz é corpo esbelto magro
gordo parrudo
minha barriga chapada
minha pança de urso
importa que dessa boca saia poesia
e quando andastes por estas ruas de frio e flor saberá que seus ossos que doem denunciam que um dia você esqueceste de dormir a tempo de acordar no tempo de tomar seu café a tempo. tome tento menino, criança que não come não cresce. adulto que come, morre? pois todas as vovós esquecerem dos colesterois herois da industria farmaceutica e bioquimica. coma pra crescer. coma para morrer. beba água. e não morra afogado. mas pense bem, a vida é curta, até atravessar as ruas.

15.3.09

Sonhei com Nava

sonhei que dava um rolê com Pedro Nava,
nos encontramos às 13 horas
no pirulito mais famoso da cidade
para uma bela tarde, de prosas

e ele me revelava segredos ousados
guardados em sua memória
e eu abismado
queria que ele me contasse
histórias de Drummond,
para que pudessemos fazer piadas
acerca do poeta itabirano

confessei a ele que morria de inveja
de sua escrita e que era infeliz
por não ter sido eu o autor do Bau de Ossos

descemos o calçadão e tomamos um café
e ele indignado com o sabor do adoçante dietético
cobrou de mim mais seriedade da minha geração
sobre coisas elementares

e no fim do dia ríamos de Murilo Mendes
que subia pro Vitorino sabe-se lá por que

22.2.09

solícito

Hi dear friend,
volto como disse, despues dessa reforma. !hola! eu sou assim, bilingue, meio a meio, afanando supertições em línguas matreiras. Mando a ti minhas palavras, verdes, antes que caiam de maduras e manchem nosso chão de cimento queimado. Tão lindo. Saudade sim, não tem tradução. Mas como disse Chico Science, "esperança é quando a dor presente nos faz tentar outra vez".

Dude, mano "véio",
eu e minha menina linda andamos pensando em repousar em Buenos Aires. Sou louco pra experimentar a Quilmes, creio eu que lá também haja exemplares de Corona. Mas enfim, vontade maior é a de viajar. E seu chegar por lá, quero comprar uns discos de vinil, de Novo Tango.

Mas de qualquer forma em Cabo Frio a gente chega.

2.2.09

patricinha mor

seus lábios delineados, cabelo impecável
são uma espécie de armadilha para este poeta
que vos fala sobre suas desilusões
ou simplesmente prepara mais versos
para curtir uma de eterno apaixonado

mas, sim, falava de seus lábios (!)
reluzentes de longe,
nesta rua escura
decorando a paisagem chata
e sem graça da cidade
num dia de quase chuva

e que sorriso malandro você apresentava
disfarçando sua exacerbada classe social
que lhe fornecia o título de patricinha-mor
e eu que sempre botei banca de descolado
fiquei babando por ti

decidi que vou te botar em verso
desse jeito, sem jeito
pra te fazer dançar na folha branca
em letras garrafais
pra te fazer dormir
nos braços da miséria gostosa
da vida de verdade
e observar teus lábios delineados
enquanto repousa nos meus versos marginais